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Ronaldo, Trump e o mundo do futebol

Novembro 26, 2025 . 10:15
A ridícula pompa criada pelas televisões portuguesas acerca de Ronaldo ter acompanhado o príncipe saudita, seu patrão, na visita à Casa Branca, foi um acontecimento revelador dos baixos valores de alguns sectores da sociedade portuguesa e, em particular, da comunicação social e do mundo do futebol.

Com a nota de que não estão em causa os muitos feitos futebolísticos e a popularidade global de Ronaldo, nem as suas qualidades de empresário e de chefe de família, ou mesmo de português, mas penso que a sua imagem pública só teria a ganhar em não ter como ídolo alguém como o presidente norte-americano.

Uma das razões, resulta da presunção de que Ronaldo sabe, pelo menos, o que se passa em Gaza, onde o genocídio em curso só é possível pelo apoio dado por Donald Trump aos extremistas do governo de Israel. No que não é uma guerra, mas um genocídio, porque uma guerra passa-se entre dois exércitos e em Gaza trata-se apenas de um poderoso exército chacinar um povo sem armas.

Por outro lado, até agora, a paz de Trump é a continuação da chacina dos povos árabes e quem viver verá a dimensão do negócio/tragédia em curso. Que as televisões portuguesas e a maioria dos comentadores não se deem conta disso é uma outra tragédia reveladora da má qualidade das elites da política e do futebol nacional.

Pessoalmente sei pouco ou nada de futebol, mas gosto de ver um bom jogo, apesar de ser apenas um adepto de sofá, todavia sei alguma coisa de gestão, de ética de grupos e das razões que conduzem ao sucesso das organizações, objetivos ausentes do futebol nacional. Futebol que, com poucas exepções, vive da corrupção resultante da chamada venda e compra de jogadores, dos chamados intermediários e desnatadores das comissões que alguém recebe.

Causa dos melhores jogadores portugueses jogarem no estrangeiro e de nos clubes do nosso futebol jogarem muitos estrangeiros. Trata-se do mesmo modelo político em que o País está mergulhado: os portugueses mais qualificados emigram e são substituídos pela mão de obra barata dos imigrantes.

Trata-se de um modelo de organização que só pode dar asneira, porque uma qualquer equipa de futebol, como qualquer outra organização humana, necessita de tempo para poder ser isso mesmo uma equipa e não um conjunto de hábitos, motivações e culturas diferentes. O caso presente do Benfica, entre outros, é particularmente educativo, porque todos os anos saem vários jogadores e entram outros tantos, os quais levarão tempo a poderem funcionar como um conjunto minimamente capaz. Para completar a cena, usualmente chega um novo treinador com novas ideias e diferentes motivações, o que aumenta o nível de asneira de qualquer organização.

Por exemplo, assisto com frequência aos jogos das melhores equipas portuguesas, ou da selecção nacional, a trocarem a bola de uns jogadores para outros, de trás para a frente, da frente para o lado e novamente para trás, sem saberem bem o que fazer com a dita. A minha interpretação é a que referi antes, apesar dos treinos os jogadores conhecem-se mal, não tiveram tempo de aprender a pensar colectivamente, logo não arriscam. Por isso, apesar de não saber nada de futebol, posso adiantar que a equipa portuguesa, por esta e algumas outras razões, está longe de poder ganhar o próximo mundial. Também não ajuda ter um treinador, ele próprio, com uma diferente cultura.

Em resumo, Ronaldo perdeu uma boa oportunidade de ficar em casa a fazer aquilo que sabe fazer bem, em vez de escolher Donald Trump como o seu herói e prestar-se a ser parte do folclore em que o presidente norte americano é exímio à custa da deterioração das suas relações com meio mundo. Por exemplo, através dos processos judiciais que move aos antigos colaboradores da sua anterior presidência, com a nota de que, por enquanto, ainda não os manda matar à moda de Putin. Ronald que se cuide.

Novembro 26, 2025 . 10:15

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