A esperança de um acordo justo em Gaza
Sendo que as opiniões sobre o sucesso da operação se dividiram profundamente entre os apoiantes da esquerda a concordarem com o desafio feito ao governo de Israel e os apoiantes da direita a criticaram a iniciativa e a cobertura mediática que lhe foi dada.
Os meus dois cronistas favoritos do jornal Público, João Miguel Tavares e António Barreto, participaram dessa divisão, com o primeiro a fazer críticas à iniciativa e o segundo justificando os acontecimentos e os seus resultados.
Pessoalmente, apesar de reconhecer algumas das razões evocadas por João Miguel Tavares, inclino-me para aceitar como boas as posições e as ideias de António Barreto, porque me pareceu inegável que a iniciativa teve o mérito de reforçar o apoio de milhões de cidadãos de todo o mundo ao povo de Gaza e da Cisjordânia e a condenação implícita do governo de Israel. Foi uma das muitas iniciativas com a mesma finalidade que ocorrem um pouco por todo o lado e porventura a que teve maior impacto mediático.
Dito isto, não posso deixar de reconhecer no discurso de muitos dos improvisados marinheiros da flotilha demasiados tiques de extrema esquerda, nomeadamente nacional, tiques que nesta ocasião, como noutras, estão longe de favorecer as nobres finalidades da iniciativa, pelo facto dos discursos se afastarem do fim principal que é o apoio ao povo da Palestina, pela via de ataques pouco consistentes à situação política portuguesa e aos seus protagonistas, na evidente procura de promoção partidária com resultados que, a meu ver, desvalorizam o que de positivo possam ter conseguido.
Por coincidência o fim da flotilha, que não diferiu muito daquilo que se poderia esperar, coincidiu com as negociações em curso do chamado Plano Trump e em pleno debate sobre as suas virtudes e previsíveis resultados. Debate que surge muito inquinado pelo tema do Hamas, tema usado pelo governo de Israel para justificar o que pessoalmente aceito ser o genocídio do povo palestino.
Confesso que neste ponto do genocídio me afasto das considerações de origem técnica muito usadas, por considerar que os acontecimentos em Gaza não são o resultado de uma guerra travada entre exércitos com poderes semelhantes, mas apenas mais uma tentativa de Israel de domínio da região, de ganho de território e o extermínio dos seus habitantes. Ou, no mínimo, a criação pelo governo de Israel das condições suficientes para a sua expulsão, objectivo que na Cisjordânia é conseguido através do crescimento imparável dos colonatos.
Este texto resulta coincidente com a anunciada assinatura do acordo entre o Hamas e Israel para o fim da ocupação do território e a entrega pelo Hamas de todos os reféns, vivos ou mortos.
Esperemos agora pela retirada das tropas de Israel e a chegada das forças de segurança disponibilizadas por alguns países da região e a consagração do princípio dos dois estados. Confesso ter receio de que este cenário possa ser demasiado bom, tendo em vista todos os acontecimentos do passado e porque nenhum dos intervenientes – o Hamas, o governo de Israel e Donald Trump- possui um passado reconhecido como fiável. Mas a esperança é a última coisa a morrer e esperemos que o melhor possa acontecer e que a governação do território nos próximos cinco anos tenha em vista a paz na região que aqueles povos bem merecem.






