
“Estamos preparados para qualquer órgão municipal. O compromisso com a população é uma marca CDU”
Diário de Viseu: Porque é candidato à Câmara Municipal de Viseu?
Leonel Ferreira: Primeiro, foi-me colocado esse desafio e sendo eu viseense, nascido e criado, vivi quase sempre em Viseu, não podia deixar de aceitar esse compromisso para com os viseenses e para com o meu concelho.
Quais são os pilares principais da sua candidatura?
O foco desta candidatura, num ponto de vista mais genérico, será recentrar aquilo que é a política do município nas pessoas. Isso tem estado ausente nos últimos anos, não só neste executivo do Dr. Fernando Ruas, mas também no seguimento dos outros executivos. Houve, de facto, um desinvestimento no concelho de Viseu. E isso hoje é notório.
Em que aspetos?
Desde logo na falta de estratégia para o desenvolvimento económico, naquilo que são as políticas de habitação e naquilo que era, por exemplo, o parque de habitação ligado ao município. Agora está a construir-se alguma coisa, mas durante anos não foi uma prioridade da autarquia. Nós temos uma habitação municipal que é menos de um por cento do possível mercado de habitação em Viseu, quando outros concelhos andam à volta dos dois por cento.
Falo em habitação pública, onde está incluída obviamente a habitação social, mas falo em habitação pública para evitar determinadas estigmas que se criam depois com a habitação social. Será uma habitação pública para todos, não aqueles guetos de bairros sociais que hoje temos em Viseu e que, de facto, não têm razão de existir.
Além da questão da habitação, o que falta a Viseu?
Falta uma visão estratégica para aquilo que é, por exemplo, o desenvolvimento económico de Viseu. Temos uma estratégia que assenta em vários pontos que consideramos fundamentais. Um tem a ver com as acessibilidades, defendemos uma estratégia assente na valorização das grandes ligações rodoviárias e ferroviárias, como base para a tração de investimento e o desenvolvimento produtivo.
Falamos da duplicação integral do IP3, a ligação ferroviária de Viseu à linha da Beira Alta e a valorização da A24 e da A25 sem portagens, que, para nós, são investimentos estruturantes para o concelho. Estas vias colocam Viseu no centro das ligações ao litoral, ao interior e à Europa, além de criarem as condições reais para fixar empresas, trabalhadores e investimento. Depois há um outro eixo que é a indústria produtiva e a requalificação dos parques empresariais. Nós defendemos a recuperação e a modernização dos parques industriais existentes com prioridade no investimento produtivo que criam emprego com direitos.
Defendemos a ligação do ensino superior e do ensino profissional ao tecido produtivo para fixar jovens
Como se atrai esse investimento?
A câmara municipal pode ter um papel fundamental com a criação de um gabinete municipal de apoio ao investimento, disponibilizando um espaço público para cooperativas, pequenas e médias empresas e startups, com orientação clara. E esclarecemos que somos contra os projetos especulativos ligados à indústria militar, nomeadamente a Israel.
Um terceiro ponto e este consideramos muito importante que é a criação de um interposto de recolha, transformação e distribuição de produtos locais, com o matadouro incluído. Este equipamento dará estabilidade à agricultura familiar e agropecuária, assegurando escoamento e preços justos, além de permitir levar a produção local a mercados regionais e nacionais, com custos mais baixos e prazos muito mais curtos.
Um interposto que funcionará aliado ao comércio local?
Nós temos várias propostas nesse sentido, nomeadamente de proteger e dinamizar o comércio tradicional, não só no centro histórico, mas também no centro histórico. Uma delas é combater a expansão desregulada das grandes superfícies e travar os seus horários, valorizando os centros urbanos e as atividades de proximidade. Propomos também a requalificação do Mercado 21 de Agosto, que pode ser usado para serviços, nomeadamente até para a loja de cidadão. Mas também a definição de um espaço permanente para o mercado de produtores.
Qual é a sua proposta para o Mercado dos Produtores?
A nossa visão, que não é só de agora, já tem algum tempo. É um projeto que depois tem de ser discutido com os interessados que são os produtores. Seria o regresso à Praça 2 de Maio, sobretudo ao piso superior, depois de requalificado para aquilo que seria um espaço condigno para o mercado de produtores.
Eu sei que há quem diga que isso é impossível por várias razões, uma delas é o estacionamento, as acessibilidades, as cargas e descargas. Quando nós estamos a falar de cargas e descargas, não estamos a falar de grandes camiões, mas de pequenas carrinhas. E depois precisamos de transportes públicos que façam uma linha circular entre aqueles que são os parques de estacionamento que existem na área. Se tivermos uma rede de pequenos autocarros a circular, resolveremos esse problema do estacionamento.

Uma requalificação que pode reforçar a atividade dos produtores e empresários locais?
Com melhores acessos ao tal interposto, a agricultura familiar, a pecuária e a floresta ganham viabilidade económica, valorizando também os pequenos produtores. Além do regresso à praça, defendemos um plano regional de turismo que valorize a identidade local e não destrua o território. A criação de um parque de campismo, que é uma reivindicação nossa antiga e uma das coisas que conseguimos. E a dinamização de eventos como a Feira de São Mateus, regressarmos ao seu carácter de feira franca e popular. Hoje estamos a transformar a Feira de São Mateus num espaço de concertos e fast-food. Se calhar o município devia retirá-la da esfera da Viseu Marca que não está a prestar um bom trabalho, com queixas enormes dos feirantes.
A organização deveria ser transferida para a autarquia?
Ou passar para a autarquia ou termos um outro modelo de gestão por parte da Viseu Marca. Nós não somos contra uma parceria entre o município e a associação empresarial, sobretudo na promoção da região. Pelas queixas que temos dos feirantes e pelas queixas que temos ouvido de quem vai à Feira de São Mateus, parece que falta qualquer coisa, sobretudo a identidade da feira.
Durante a campanha também falou das obras na feira semanal. Qual é a sua proposta?
Aquele espaço tem que ser requalificado, obviamente. Está previsto há não sei quantos anos. Fizeram-se agora umas obras de fachada que não resolvem, nem os problemas a quem lá vende, nem os problemas de quem lá vai para comprar. Nós quando estivemos na assembleia municipal, de 2013 a 2021, levámos várias propostas nesse sentido, até na criação de casas de banho, que não havia. Os feirantes continuam a ter gravilha. Assim que chover, vai ser ali um problema, como tem sido todos os anos. É preciso investir em requalificações profundas.
A adesão à Águas do Douro e Paiva é o caminho para a privatização. A nossa posição é de rejeição
O concelho também tem vindo a afirmar-se no ensino superior. Que importância assume na sua candidatura
Defendemos a ligação do ensino superior e das escolas profissionais ao setor económico. É preciso aproximar o tecido produtivo do Instituto Politécnico de Viseu às necessidades da agroindústria e das novas fileiras verdes, que permitem fixar jovens, valorizar o trabalho e inovar sem deslocalizar talento. A universidade pública é também uma reivindicação nossa já antiga, enquanto muitos falavam só na Faculdade de Medicina.
Mas, de facto, levámos a Parlamento através do grupo parlamentar do PCP, a criação da universidade pública, antes de qualquer faculdade. E hoje não temos universidade pública em Viseu porque houve forças, nomeadamente o CDS, o PSD e o PS que não nos acompanharam nessa reivindicação. Tenho muito apreço por aquilo que foi o trabalho da Universidade Católica e de outros estabelecimentos de ensino como o Piaget, mas nós precisamos de uma universidade pública para todos e não só para alguns.
Rejeitamos ainda a instalação de polos industriais ligados a parcerias com Estados violadores do direito internacional. As infraestruturas e o investimento devem servir de facto a economia real, a justiça social e a sustentabilidade ambiental.
A campanha trouxe vários temas ao debate como a adesão à Águas do Douro e Paiva. O que pensa desta questão?
Nós somos muito claros sobre isso e a nossa posição é de rejeição desse processo por três razões fundamentais. A primeira é porque há no município e nos municípios dependentes da barragem de Fagilde condições para fazermos a gestão em alta das águas. Uma segunda razão é que o município de Viseu deixa de conseguir impor aquilo que são as taxas e tarifas, deixam de ser da responsabilidade do município. Dizem que água vai ser mais barata, mas amanhã não sabemos se quando um cidadão abrir a torneira, qual vai ser o preço que vai pagar pela água. Uma terceira razão é que isto é o caminho para a privatização.
Obviamente que se diz que a Águas do Douro e Paiva é uma sociedade anónima de capitais públicos. Os CTT também eram, a EDP ou a REN. Estamos a falar em água e já vimos a sede que este Governo tem de privatizar setores essenciais. Outra questão é a redundância. Há no concelho de Viseu, outros pontos de captação de água que possam servir de redundância à barragem de Fagilde, por exemplo, a barragem de Calde. É preciso fazer este investimento, não é por falta de recursos naturais nem de nascentes de água. Vamos estar muito atentos porque há uma coisa que é certa, promessas que passam ao lado de Viseu, estamos fartos delas.

Falando também na cultura, o que pensa do projeto do Centro de Artes e Espetáculos?
A cultura é muito mais do que o Centro de Artes e Espetáculos. Nós, por princípio, e até porque dialogamos com os agentes culturais e os trabalhadores da cultura, não somos contra a construção de um Centro de Artes e Espetáculos. Agora, há coisas que precisamos saber. Conhecer este projeto em concreto, que não conhecemos.
Conhecer o financiamento em concreto, que não conhecemos. Conhecer quanto já se gastou neste projeto, que não conhecemos. Sobretudo, qual é o modelo de gestão que se quer aplicar. Isso para nós é fundamental. Se é um modelo de gestão privado, em que traga meia dúzia de espetáculos por ano, ou então um Centro de Artes e Espetáculos ao serviço dos agentes culturais de Viseu, dos trabalhadores da cultura, das associações e das pequenas companhias.
Viseu é, há mais de 30 anos, um concelho ligado ao PSD. Pensa que a CDU poderá quebrar este ciclo?
Estamos no concelho de Viseu e também temos que ter a noção e os pés bem assentes na terra, que não será fácil a eleição para a vereação. Nós estamos preparados para qualquer lugar, seja para o executivo municipal, seja para a vereação, seja para a assembleia municipal, seja para as assembleias de freguesias. Acho que temos bons indicadores. Esperamos que possamos voltar a eleger para a assembleia municipal e para as assembleias de freguesia. É o nosso objetivo para estas eleições.
“O Hospital de Abraveses deve ser uma unidade de cuidados continuados”
Quais são as suas principais prioridades na área da saúde?
Nós temos uma proposta de reconversão do atual Hospital de Psiquiatra de Abraveses numa unidade de cuidados continuados e paliativos, seria muito importante. Aquele espaço tem condições excelentes para vir a ter essa unidade e deve ser utilizado para esse fim. A câmara pode dar um sinal para que aquele terreno não seja para especulação, mas depois compete ao Governo fazer o resto. Nós precisamos efetivamente deste investimento, mas também aquilo que é o reforço das equipas de cuidados na comunidade.
Tem que ter mais meios, tem que ter veículos próprios, tem que ter profissionais multidisciplinares que possam levar os cuidados de saúde de proximidade, sobretudo às freguesias mais distantes do concelho. Isto para reforçar o apoio a seniores, doentes crónicos, inclusive cuidadores, combater o isolamento, sempre em colaboração com as freguesias e soluções existentes. As unidades de saúde familiares estão quase todas concentradas no centro, é também preciso abrir polos, em articulação com a ULS.
Esperamos que possamos voltar a eleger para a assembleia municipal e para as assembleias de freguesia. É o nosso objetivo
“É preciso requalificar edifícios devolutos para habitação acessível”
Viseu cresceu muito em população nos últimos anos. Como é que resolvia o problema da falta de habitação?
Começo por dizer que o problema da habitação tem duas vertentes. A vertente que pode ser feita pela autarquia e a vertente que corresponde ao Estado Central. O parque habitacional da responsabilidade da câmara é, de facto, curto e tem que ser aumentado. É preciso requalificar edifícios devolutos e que hoje estão abandonados, sejam eles públicos ou privados, para a habitação a rendas acessíveis.
Quando digo rendas acessíveis têm que estar sempre ligadas ao rendimento do agregado familiar. É preciso construir mais também, o que bem é evidente. Não temos nada contra o setor privado, mas quando se fala em rever o Plano Diretor Municipal (PDM), pode ser feito tendo em atenção o interesse público.
Portanto, defende a revisão do PDM?
Uma revisão sim, mas tendo em conta o interesse público e não interesses especulativos. Porque pode haver construção privada, mas o município pode exigir que parte dessa construção privada depois possa ser colocada com rendas acessíveis. Não é nada de novo, inclusive já acontece em outros países e em outros distritos.
É preciso também burocracia mais leve e justa, porque nós temos conhecimento que há quem consiga um licenciamento em três e quatro dias e há quem espere vários meses. Temos que ter um departamento de urbanismo que consiga dar resposta.







