
Projeto na Guarda sugere "outras dimensões da existência humana" no apoio domiciliário a seniores
“O apoio domiciliário, quando foi concebido, no final dos anos 70 do século passado, estava muito centrado nesta satisfação. Hoje, já percebemos que as pessoas têm necessidades de pertença, de utilidade, de reconhecimento, de estima e de combate à solidão”, disse à agência Lusa Carla Ribeirinho, coordenadora do “GuardAfetos”.
Para a investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP-ULisboa), as instituições particulares de solidariedade social (IPSS) ainda têm “muitas dificuldades em conseguir responder a essas outras dimensões da existência humana”.
Carla Ribeirinho falava à margem da sessão de apresentação do Diagnóstico dos Serviços de Apoio Domiciliário (SAD) prestados pelas IPSS do município da Guarda, que decorreu hoje nos Paços do Concelho.
O trabalho envolveu a Federação das Instituições de Terceira Idade (FITI), que está integrada na Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), o Centro de Dia e Lar de Santa Ana de Azinha e a Câmara da Guarda.
No concelho da Guarda há 36 IPSS que prestam SAD em 31 freguesias. As restantes 12 não têm resposta instalada.
O “GuardAfetos” deu origem a dez recomendações, que resultaram das respostas a questionários por parte de diretores técnicos das IPSS, auxiliares da ação direta, familiares de idosos, GNR, Segurança Social e ULS da Guarda.
Já os idosos e os cuidadores informais, outro público-alvo, foram entrevistados para “percebermos como vivem e trabalham, quais os cuidados e necessidades que precisam e o que se está a fazer”.
“O que percebemos é que se estão a fazer coisas muito boas no território”, acrescentou a responsável.
Entre as propostas do projeto estão o trabalho em rede das IPSS do concelho, a mobilização dos agentes locais neste serviço, o recurso à teleassistência, à digitalização, à inovação social e, “naturalmente, à pressão” junto da Segurança Social para a revisão do financiamento.
“É preciso diferenciar o financiamento para quem faz mais, quem quer fazer diferente e quer cuidar melhor, daqueles que apenas se centram nos cuidados básicos”, sustentou.
A coordenadora do projeto recordou que Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo e que “não é possível, nem desejável, institucionalizar as pessoas todas em lares”.
“É importante não diabolizar as instituições, mas é também importante perceber que, para muitas pessoas, não é a solução desejável. Quando questionadas onde desejam envelhecer, onde querem morrer, as pessoas escolhem normalmente as suas casas”.
Nesse sentido, o projeto permitiu concluir que “se queremos manter as pessoas em casa com dignidade, qualidade de vida e bem-estar, isso não deve ser feito à custa da solidão e a um determinado abandono social”.
Carla Ribeirinho reconheceu que as IPSS da Guarda estão “muito empenhadas” em responder às necessidades da população sénior do concelho, mas que estão “muito pressionadas” pelo aumento dos idosos, da “rarefação das relações com as famílias e com redes de vizinhança, que também se vão perdendo”.
Outro problema tem a ver com dificuldades de financiamento, de recrutamento e de fixação de quem queira trabalhar nesta área.
Para José Carlos Batalha, presidente da FITI, é preciso agora “transformar estes dados em ações”.
“A solidão e o envelhecimento são os maiores desafios sociais do nosso século. O ‘GuardaAfetos’ é a resposta a este desafio”.
O presidente da Câmara da Guarda, Sérgio Costa, adiantou que vai levar “pessoalmente” os resultados do projeto às tutelas governamentais, “para que um bom exemplo da Guarda se transforme numa boa política pública para o país”.
“O caminho desejável tem nome. Primeiro, uma orientação preventiva e de proximidade. Depois, progressivamente, uma rede integrada de cuidados complexos. O que é preciso é qualificar a rede existente”.
Segundo os Censos Sénior de 2025, da GNR, a Guarda tinha 5.852 idosos a viver sozinhos e/ou isolados e era o distrito do país com mais casos.







