Última Hora

Educação e Desenvolvimento

Agosto 31, 2026 . 08:00
Recentemente os jornais publicaram a informação de que no acesso ao ensino universitário, apenas 3% dos alunos são carenciados, ou seja, oriundos de famílias pobres.

Como em Portugal as famílias pobres são muito mais do que isso, podemos concluir que a grande maioria dos filhos das famílias pobres não tem acesso ao ensino universitário. Ou seja, a universidade portuguesa é um feudo dos ricos e de alguns remediados, onde se fabrica e aceita a exclusão social.

As consequências desta característica do ensino universitário em Portugal são bem visíveis, por exemplo: (1) Como praticamente todos os deputados da Assembleia da República possuem cursos universitários, podemos concluir que a representação das famílias pobres é diminuta ou não existente; (2) Como no governo todos os ministros e secretários de Estado são licenciados ou doutorados, acontece o mesmo, os pobres estão fora da governação; (3) Como o mesmo acontece na direcção dos hospitais, na Justiça e na maioria dos serviços públicos, podemos concluir, sem surpresa, que os pobres têm maior dificuldade de acesso aos benefícios do Estado, ou que quando recebem alguns benefícios, são sob a forma de esmolas.

Claro que não preconizo o absurdo desses empregos de cidadãos com cursos universitários darem lugar a não licenciados, que não teriam os conhecimentos e a formação adequada.

Mas preconizo, isso sim, uma reforma profunda do sistema educativo português, criadora das condições que permitam o acesso dos filhos das famílias de menores rendimentos ao ensino universitário e até sei como isso se faz, porque desde há muitos anos escrevo sobre o assunto, ainda que com pouco sucesso.

Por exemplo: numa crónica publicada no jornal o Correio da Marinha Grande em 30-11-1990, portanto há 36 anos, com o título “Que Europa?” escrevi: “Uma questão fundamental tem a ver com as desigualdades sociais existentes na Europa de hoje. Pode compreender-se que existam ainda durante algum tempo, salários e níveis de vida diferentes de região para região, em função da capacidade económica instalada.

Mas a Europa só será uma verdadeira comunidade na medida em que nalgumas áreas sociais determinantes, como a educação e a saúde, haja desde já um propósito de igualdade, o que só será praticável se o conjunto dos recursos europeus for aplicado de acordo com as necessidades e não de acordo com a capacidade económica.

Ou seja, para ser mais claro, na educação e na saúde deve haver, desde já, um orçamento europeu e uma distribuição europeia dos recursos”.

Pensem os leitores que Europa teríamos hoje, se esta simples ideia tivesse sido aplicada e como hoje seria muito melhor o nível educativo médio dos portugueses. De facto, a ideia foi aplicada, mas na agricultura.

Hoje, a minha proposta para a questão descrita de acesso à universidade é outra, que defendo há muitos anos e que resulta essencialmente de dotar as creches e o ensino pré-escolar dos mesmos recursos que são dados ao ensino universitário, ou seja, a mesma qualidade e quantidade de instalações, a mesma qualidade de alimentação, o mesmo nível de qualidade dos docentes, acrescentando-lhe o transporte.

Ou seja, o edifício educativo das crianças até aos sete anos é a principal base do desenvolvimento humano e, por consequência, económico do País. Todavia, o ensino universitário é a menina dos olhos dos governantes e as crianças pobres, o parente deserdado. Creches e pré-escolar com poucas e más instalações e sobrelotadas, assiduidade anárquica, muitos docentes sem as qualificações adequadas, ausência de transporte essencial para melhorar a frequência. Claro que nas escolas privadas, para quem pode pagar, a situação é melhor.

Reclamo isto há anos, mas, infelizmente, verifico que os deputados, os governantes e os dirigentes em geral são pelo menos licenciados, ou seja, todos os recursos são dirigidos para as universidades e nem sequer se dão conta de que teremos menos e piores alunos na universidade com metade das crianças portuguesas a chegarem ao ensino obrigatório marginalizadas dos conhecimentos e das competências adquiridas pelos seus colegas oriundos das famílias de maiores recursos.

Crianças que têm livros em casa, vão ao teatro, aprendem a nadar, por vezes aprendem ou ouvem música, coisas com que a esmagadora maioria dos mais pobres nem sonha.

Agosto 31, 2026 . 08:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Seguir
Receba notificações sobre
0 Comentários
Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right