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Espírito de Branquinho da Fonseca está no ADN de Cascais

Nascido na aldeia de Laceiras, em Mortágua, no distrito de Viseu, António Branquinho da Fonseca mudou-se para Cascais, terra de origem da mulher, já depois de ter montado uma biblioteca na Nazaré. Foi o autor da ideia de levar bibliotecas itinerantes a todo o país

O espírito do gosto pela leitura de António Branquinho da Fonseca está no ADN de Cascais e 2027 deverá ver estrear um filme-documentário e um livro sobre o autor da ideia de levar bibliotecas itinerantes a todo o país.

“A nossa comunidade ama as bibliotecas, temos aproximadamente 240 mil entradas por ano”, destaca João Miguel Henriques, recebendo a Lusa no Arquivo Histórico Municipal de Cascais, no distrito de Lisboa, onde está guardado o espólio daquele que criou a primeira experiência moderna de biblioteca itinerante em Portugal, neste concelho, quando era conservador do Museu Condes de Castro Guimarães.

“O espírito de Branquinho da Fonseca, do gosto pelo livro e pela leitura, continua, está no nosso ADN já, nós defendemo-lo todos os dias”, assegura o diretor do arquivo.

“É uma personagem extraordinária, eu diria central da cultura portuguesa, mas muitas vezes apenas conhecido, e só por isso já era muito bom, pelas bibliotecas itinerantes, porque ele fez muito também pelas bibliotecas físicas”, ressalva.

Nascido na aldeia de Laceiras, em Mortágua, no distrito de Viseu, António Branquinho da Fonseca mudou-se para Cascais, terra de origem da mulher, já depois de ter montado uma biblioteca na Nazaré.

Mas foi em Cascais que, a partir de 1953, testou a pioneira biblioteca circulante ou itinerante, “com muito sucesso” e algumas adaptações: o primeiro circuito previa paragem apenas durante 10 minutos em cada ponto, o que se verificou impossível, e passou a circular o dia inteiro, por todo o concelho.

Introduziu também alterações na biblioteca fixa do museu onde trabalhava: funcionamento noturno (para que quem trabalhasse pudesse ir à biblioteca), empréstimo domiciliário, leituras em grupo.

“O interesse dele foi sempre constituir uma biblioteca que servisse às pessoas”, destaca João Miguel Henriques, coautor do livro “Branquinho da Fonseca: um escritor na biblioteca”.

A ideia da itinerância “não é uma invenção” de Branquinho da Fonseca, pois há registo de vários exercícios desde o século XVIII, em Itália, França e mesmo em Portugal, no tempo do Marquês de Pombal, mas ele “conseguiu implantar um sistema em termos nacionais”, sublinha o neto, Luís Branquinho Oliveira.

Eram sobretudo as pessoas “com bagagem, com educação” que frequentavam a biblioteca. “O povo não vinha à biblioteca, então ele começou a pensar ‘como é que eu mudo isto, como é que eu faço com que as pessoas que têm pouca literacia tenham acesso a livros? A única forma é levar-lhes o livro’”, recupera.

Branquinho da Fonseca acreditava que a única forma de o país se desenvolver era através da cultura e da leitura e a Fundação Calouste Gulbenkian viu potencial nacional na experiência de Cascais.

Em 1964, já havia 63 carrinhas a circular por todo o país, incluindo ilhas. “É uma empreitada de uma dimensão, as pessoas não têm ideia do que aquilo era, levar os livros todos, espalhados pelas aldeias mais remotas”, realça Luís, diretor de fotografia de filmes inspirados na obra de Branquinho da Fonseca, realizados por Edgar Pêra, e agora a realizar um filme-documentário sobre o avô, que deverá estrear em abril de 2027.

“A grande vitória do meu avô foi ter conseguido fazer essa revolução silenciosa brutal, que pôs milhões de pessoas […] a lerem. É uma coisa absolutamente admirável, ele conseguiu levar sonhos a toda a gente. Há aqueles relatos das carrinhas a pararem no adro de uma igreja, numa aldeia de sete casas, e as crianças vêm descalças, a correr, para irem ter com o livro, é uma maravilha”, enaltece.

Na senda de “saber mais” sobre o avô, começou “a ler a obra toda” e a “pesquisar aqui e ali”, e agora já conhece o arquivo de “cor e salteado”.

Neste processo, cruzou-se com Maria Mota Almeida, que tinha acabado de fazer uma tese sobre o Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, e, juntos, estão também a preparar um livro sobre tudo o que recolheram em 13 anos de trabalho conjunto.

“Temos encontrado muitos documentos que nunca tinham sido trabalhados”, indica a professora e investigadora, adiantando que vão acrescentar informação à vida e obra de Branquinho da Fonseca.

Por exemplo, só há uns meses ficaram a saber que as carrinhas que viriam a alargar o projeto das bibliotecas itinerantes a todo o país – com o financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian – chegaram a Angola e Moçambique, no final dos anos 1960 e inícios de 1970.

“Fez uma rutura no que se fazia nas bibliotecas no geral. De facto, ele não veio aqui para protagonismo, […] era uma pessoa humilde, ele fazia para os outros […], era um humanista”, resume Maria Mota Almeida.

“Levar a cultura onde a cultura não chega” era o seu lema, resume, ancorada na sua própria história familiar: a avó, viúva, vivia numa aldeia a sete quilómetros de Tomar e a carrinha da Gulbenkian ia lá só por causa dela.

Em Cascais, acredita-se que a receita da itinerância continua a funcionar: depois de ter circulado ininterruptamente no concelho durante 30 anos e de vários interregnos, foi adaptada à atualidade, com financiamento público (município) e privado (Fundação D. Luís I), servindo agora dois parques urbanos, aos sábados, e as escolas do concelho sem biblioteca escolar.

“Tivemos um problema inicialmente, porque, quando chegávamos [às escolas] à quinta-feira, já não tínhamos livros – Branquinho da Fonseca teve o mesmo problema – e então comprámos mais livros, para poder servir todas as crianças. E é, de facto, um fascínio quando a biblioteca chega, os miúdos estão já à espera para poder entrar e fazer a sua escolha”, relata João Miguel Henriques.

Agosto 15, 2026 . 11:40

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