Presidência da República
Não concordo porque, como tenho defendido ao longo dos anos, o Presidente da República não ganha nada em ser comentador político à moda de Marcelo Rebelo de Sousa, nem deve passar a vida a criticar ou a apoiar publicamente as decisões e as indecisões dos governos. O País também não ganha nada com isso.Como tenho escrito, acredito que as intervenções públicas do Presidente da República devem ser usadas para o debate dos grandes problemas nacionais de definição estratégica sobre o futuro de País, como pode debater com as instituições e com os portugueses o nosso processo de desenvolvimento e os resultados da governação neste plano de análise prospectiva. Na minha opinião, a palavra do Presidente da República é demasiado preciosa para ser usada nas habituais questiúnculas do debate partidário e na leitura das decisões e omissões dos governos. Para isso basta a aprovação ou a recusa das leis e demais documentos emitidos pela Assembleia da República e pelo Governo.
Infelizmente, esta visão da intervenção do Presidente da República não tem sido praticada por sucessivos habitantes do Palácio de Belém, com o resultado de Portugal desde há muito navegar à vista, sem sentido de direcção, acumulando sucessivas decisões erradas e frequentemente contraditórias. O acontecimento mais evidente deste modelo errado de governação dos últimos trinta anos está patente no caso do PRR, onde foram consumidos cerca de vinte mil milhões de euros de fundos comunitários, sem que isso tenha alterado o anémico crescimento económico do último quarto de século. A propósito, aproveito para garantir aos portugueses que com o modelo económico seguido até agora, o crescimento económico continuará anémico. Entretanto, quero acreditar que António José Seguro terá a consciência de que a intervenção do Presidente da República nos acontecimentos da governação, que são matéria da intervenção dos partidos na Assembleia da República, ou entrar no debate dos sucessos e dos erros do primeiro-ministro e do governo, apenas contribuirá para desvalorizar a sua intervenção quando necessária. Para isso tem as reuniões semanais com o primeiro-ministro.
Uma outra questão é saber se o Presidente da República tem a noção exacta da importância do debate estratégico e da necessidade de planeamento, como a forma útil de superar os erros da governação à vista dos últimos trinta anos. Não sei e isso não tem estado presente nas intervenções do senhor Presidente da República, mas será de esperar que as diferentes individualidades escolhidas para o aconselhar possam chegar a essa conclusão, nomeadamente pensando nos progressos feitos no passado, seja como resultado da adesão à EFTA, seja na fase do PEDIP/AutoEuropa, quando ambas as decisões se enquadraram numa estratégia bem elaborada. Quanto ao factor planeamento, recordo que atingimos o ponto mais alto com a equipa de Marcelo Caetano e nos governos de Cavaco Silva graças à visão estratégica de ministro Mira Amaral.
Em resumo, Portugal enfrenta uma grave crise de desenvolvimento e de crescimento económico, como resultado da total ausência de direcção estratégica e não será com as receitas recentes de um Prémio Nobel de visita a Portugal que resolveremos o problema. Olhando ao redor, vejo apenas a possível intervenção do Presidente da República, com a vantagem deste tema ser, infelizmente, um tema totalmente ausente do debate político.






