O País do Faz de Conta
Por exemplo, esta semana li uma entrevista da senhora ministra do Ambiente, Graça Carvalho, em que a certo ponto surge a seguinte pérola: “Não dou sequer a oportunidade de estar sujeita a pressões.
Não recebo promotores de nada, e mesmo embaixadores que querem falar de algum projecto ou empresa acabo logo. Não oiço as partes interessadas nos projectos, sou muito rígida, só me guio pelas evidências científicas para tomar decisões políticas.”
A primeira questão óbvia a colocar à senhora ministra é onde vai descobrir as evidências científicas, porque supondo que não recebe nenhum cientista que a possa influenciar com alguma ideia, se limitará a procurar as evidências científicas na leitura dos livros e das revistas, ou ouvidas de algum colega no Conselho de Ministros. Ou seja, como é possível ser ministro e não interagir com a sociedade e com as ideias e interesses expressos pelos agentes económicos e julgar esses interesses de acordo com o interesse nacional?
Ou como é possível abarcar toda a evidência científica sem a intermediação dos agentes económicos num tempo em que surjam com enorme rapidez novos investimentos, novas ideias e novas evidências? Ou como pode haver novos investimentos úteis ao País sem a interação entre os investidores e o governo? Com este critério será mais simples colocar os cientistas a governar, porque com os critérios da senhora ministra, quaisquer investimentos, como o da AutoEuropa, nunca existirão.
Coisa diferente é a senhora ministra ceder aos interesses, como por exemplo no caso da APREN- Associação Portuguesa de Energias
Renováveis, de forma que os seus associados beneficiem do apoio do Estado para venderem toda a energia produzida, seja essa energia necessária ou não e a preços sem concorrência, em muitos casos ao longo dos últimos vinte e cinco anos e à custa dos consumidores, empresas e famílias, que é quem acaba por pagar a conta. Estou certo de que com este novo critério a senhora ministra se vai recusar a receber os dirigentes da associação.
Feliz ou infelizmente, nem todos os ministros seguem as teses da ministra Graça Carvalho. O ministro Pinto Luz nunca conseguiria ter evidências científicas para acabar de vez com as obras nas linhas ferroviárias da Beira, do Oeste ou do Poceirão ao Caia e menos ainda para encontrar forma de conter os respectivos custos.
Ou, já agora, para construir o novo aeroporto, as linhas férreas do Porto a Lisboa e a ligação a Madrid. Menos ainda para construir as várias pontes previstas do Barreiro a Chelas, de Algés à Trafaria e, a última anunciada, do Barreiro ao Seixal. Não haveria cientistas que chegassem.
Suponho que o ministro também não obteve evidência científica para ter optado pela bitola ibérica na ferrovia nacional e para recusar orgulhosamente os apoios financeiros da União Europeia, que teimosamente pretende que Portugal use a bitola e as normas de segurança europeias.
Nestes casos onde andará a evidência científica, pergunto-me?
Mais a sério, talvez que um pouco mais de cuidado na escolha dos nossos governantes pudesse evitar tanto amadorismo e, já agora, tanta dependência dos mais variados interesses, em que a transparência, a seriedade individual e os necessários valores éticos são mais relevantes do que fechar os ministérios à sociedade.





