
Lula reeleito num país dividido e Congresso conservador
Lula da Silva foi reeleito, aos 80 anos, para um quarto mandato, e repete o feito de 2022 ao derrotar a família Bolsonaro na corrida à Presidência do Brasil, num país dividido.
Na segunda volta das presidenciais brasileiras, o líder de esquerda derrotou o filho “01” de Jair Bolsonaro, o senador conservador Flávio Bolsonaro, de 45 anos, numa corrida marcada por troca de acusações de escândalos dos dois lados.
Lula assumirá um quarto mandato com um país dividido pela votação apertada, e com um Congresso conservador, uma vez que o Partido Liberal (PL), de Flávio Bolsonaro, tem a maioria dos assentos no Senado e na Câmara dos Deputados.
Para o futuro, e com os efeitos dos escândalos do Banco Master e da polarização no país, defende uma reforma no Judiciário: mandato para juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro e alteração na forma de indicá-los ao cargo.
O ‘petista’ espera ainda, este ano, aprovar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública que cria regimes penais mais severos, e reformula as designações das entidades federativas e dos órgãos no combate ao crime organizado.
Há poucos dias, num sinal ao campo conservador, passou a defender também a diminuição da responsabilidade penal para menores de 16 anos, mas somente para crimes hediondos.
Maior nome do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva passou as últimas semanas a dizer que o povo brasileiro teria de fazer uma escolha "entre democracia e soberania e, do outro lado, barbárie, negacionismo e retrocesso".
O ‘petista’ governou no seu terceiro mandato (2022-2026) com uma base frágil no Congresso Nacional e usou como moeda de troca ministérios e cargos estratégicos, além de fazer negociações via Orçamento federal, a partir das emendas parlamentares.
Entre as conquistas do “Lula 3” estão a aprovação de Reforma Tributária e a redução da jornada de trabalho semanal, com dois dias de descanso.
Também acumulou derrotas, a maior delas a rejeição do nome indicado ao Supremo Tribunal Federal brasileiro, pelo Senado, um feito inédito em mais de 130 anos.
Ao longo desse mantado, declarou que está a reconstruir o Brasil, após acusar o bolsonarismo de destruir pontes diplomáticas e políticas públicas, além de acusá-lo de negligente pela não regulamentação das “bets” e vício da população nos casinos online.
Mesmo muito impopular entre os grandes empresários do agronegócio, e com a promessa de governar para todos, Lula elevou para valores recorde o Plano Safra, principal programa de financiamento do agronegócio brasileiro.
O líder de esquerda também lançou vários programas sociais no seu terceiro mandato, como incentivos financeiros para estudantes, renegociação e perdão de dívidas da população e pequenos empresários.
Por elevar os gastos públicos e pelos "pacotes de bondades" foi muito criticado por economistas e analistas do mercado financeiro, que apontam como consequência pressão inflacionária e juros alto.
No cenário internacional, o mandato “Lula 3” foi marcado pela retoma da diplomacia presidencial, quando passou a propagar o país em fóruns mundiais e agendas bilaterais com autoridades internacionais dizendo que "O Brasil estava de volta".
Defensor do multilateralismo, visitou Estados Unidos, China, países da Europa e do Médio Oriente para abrir mercados e estreitar relações diplomáticas, em agendas que ficaram marcadas pelo humor, simpatia e informalidade com que se referia aos seus homólogos.
Crítico dos conflitos liderados por Israel e EUA, também visou o Conselho de Segurança da ONU, que apelidou de ineficiente e omisso.
Lula também colheu derrotas, ao fracassar na tentativa de criar um grupo da paz para acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e fazer declarações polémicas sobre o conflito.
Na relação com os países vizinhos, retomou relações diplomáticas com a Venezuela, encerradas por Bolsonaro, e criou desgaste interno ao defender Nicolás Maduro, que depois criticou o ‘petista’, após o Governo brasileiro pedir transparência nas eleições venezuelanas de 2024.
Com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, as relações diplomáticas entre Brasília e Washington degradaram-se com as tentativas de interferência do Presidente dos EUA na política interna do Brasil durante o julgamento que levou à condenação de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
A Casa Branca e o Palácio do Planalto tiveram uma série de embates após Washington sobretaxar produtos brasileiros como forma de retaliação e por os EUA classificarem as duas maiores fações criminosas do Brasil como organizações terroristas.
Com o discurso de defesa da soberania nacional, Lula da Silva e a esquerda brasileira passaram a usar as cores da bandeira do Brasil, como forma de resgatar símbolos "sequestrados pelo bolsonarismo".
Vários escândalos marcaram o mandato “Lula 3”, em que um ministro foi demitido por assédio sexual, outro que passou a ser investigado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção quando deputado federal, e demitiu um aliado histórico da chefia do Ministério da Previdência Social no âmbito do escândalo dos descontos indevidos de reformados e pensionistas.
A "Fraude do INSS", que ocorreu de 2019 a 2024, atingiu a oposição, governantes, políticos de vários partidos, funcionários públicos, lobistas, sindicatos, entidades representativas e bancos.
O petista passou a dizer que "uma quadrilha se instaurou" no órgão federal, e, embora executivos da sua Administração tenham sido presos, que foi sob o seu governo que o esquema criminoso, que, diz, começou na gestão Jair Bolsonaro, foi descoberto e desmantelado.
Lula também viu o escândalo do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro por fraude no sistema financeiro, não apenas atingir Flávio Bolsonaro e políticos influentes do chamado "Centrão", mas respingar na imagem de aliados e do seu Governo.
A teia de contactos e relações do então banqueiro Daniel Vorcaro, pivô da crise e atualmente preso, atingiu alguns juízes do STF, com conversas suspeitas e negócios com familiares desses magistrados.
Lula também sofre desgaste com o facto de o seu filho mais velho, conhecido como Lulinha, ser alvo de três inquéritos da Polícia Federal por suposto tráfico de influência dentro do Governo.







