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“Ter um anestesista ao lado é uma segurança e um conforto muito importante”

Entrevista - A especialidade de anestesiologia está a comemorar 180 anos e o Serviço de Anestesiologia da ULS Viseu Dão Lafões assinala 55 anos. O Diário de Viseu conversou com a diretora do Serviço, Alexandra Guedes, a propósito da importância da anestesiologia e do papel do anestesista na vida das pessoas. Questões que, também, vão estar em cima da mesa na conferência que amanhã decorre no Solar do Vinho do Dão, em Viseu

Diário de Viseu - Normalmente, só quando se entra num hospital para uma intervenção cirúrgica ou numa qualquer unidade para um exame, é que nos lembramos da importância e do papel do anestesista. Que importância é essa e que papel tem?

Alexandra Guedes O papel é exatamente esse. É estar presente nos momentos mais críticos das vidas das pessoas, sejam eles quais forem. O anestesista representa, em alturas muito críticas, difíceis e definitivas da vida de toda a gente, uma presença importante que assegura segurança e viabilidade naquilo que as pessoas necessitam de fazer, seja uma cirurgia, seja um exame complementar de diagnóstico ou de terapêutica de qualquer tipo. Portanto, quando é preciso viabilizar um procedimento algo importante para a saúde das pessoas e é preciso que isso se faça bem, com segurança e sem dor, o anestesista está presente e viabiliza.

Essencialmente para tirar a dor?
Para tudo. A viabilização de uma cirurgia não se esgota na redução da dor. Há uma série de condições que é necessário estarem presentes e viabilizá-las para que alguém possa ser submetido, nomeadamente, a uma grande cirurgia. É preciso que o doente cumpra uma série de preceitos e, sobretudo, que os cumpra em segurança. Que naquilo que é a anestesia geral, que é só uma parte da nossa atividade, o doente possa acordar, seguro e sem dor.

Foi uma das maiores descobertas para a medicina?
Eu não tenho qualquer tipo de dúvida que é um milagre da Ciência. A anestesia não permite só o ato em si do anestesista. Ela permite viabilizar uma série de procedimentos, desde os mais simples, cirúrgicos, a procedimentos muito complexos como transplantes cardíacos ou pulmonares. Procedimentos, que sem anestesia seriam rigorosamente impossíveis. Como também coisas do dia-a-dia, como sejam por exemplo exames que passam a ser feitos sem desconforto e sem dor. Ou seja, a anestesia permitiu um desenvolvimento científico em todas as áreas da medicina. E permitiu, também, que tudo se fosse fazendo nessa sofisticação científica que foi acontecendo, com mais segurança, mais certeza, mais humanidade e menos dor. Porque isso já se realiza há muitos anos, mas a verdade é que a segurança como vamos fazendo as coisas, a redução das consequências negativas para os doentes, têm sido ao longo do tempo claramente exponenciais. Se pensarmos que as práticas cirúrgicas datam de antes da Idade Média e percebermos que só há 180 anos é que alguém se lembrou que seria melhor que essas intervenções fossem feitas de forma a ajudasse o doente, é que entendemos a evolução.

Há 198 anos não havia anestesia. Como se faziam as coisas?
Ou não eram feitas! Muitas dessas coisas não eram realizadas ou eram feitas com dor. Mas também com o impacto que podia promover a perda da vida. Realizar algo que é muito interventivo e muito agressivo para um doente sem que este esteja devidamente adaptado ao ato, pode pôr a vida em risco. E devidamente adaptado é estar anestesiado, relaxado, sem dor, permitindo que um ato de grande agressão seja feito sem que a vida seja perdida. Nessa altura faziam-se coisas muito limitadas e altamente agressivas para a fisiologia dos doentes.

Mas uma anestesia não é uma “medida standard”. É algo que se adapta a cada doente?
É algo completamente costumizável a cada doente. Cada doente é um mundo, com toda uma série de características, sejam do ponto de vista humano, seja a sua patologia associada e as suas características do ponto de vista fisiológico. E, portanto, nós adapta-mo-nos ao mundo que é cada doente e, daí a dificuldade e a complexidade do processo, pois não se trata de elaborar uma receita. Mas também daí, a arte que fomos desenvolvendo de a ajustar a cada doente, cada vez com mais segurança, mais certeza e menos consequências.

Já aconteceu um doente acordar a meio da cirurgia?
Espero que isso tenha acontecido a muitos poucos de nós. Mas é um fenómeno possível de acontecer. Temos algumas medidas farmacológicas para o obviar, mas é uma coisa muito menos comum do que as pessoas imaginam.

Existem tabus à volta da anestesia?
Imensos. Até deve ser provavelmente a especialidade com mais tabus. Daí a necessidade de a tornar mais visível, de falarmos mais sobre ela e que as pessoas se sintam mais esclarecidas sobre o que vêm fazer. E isso não se esgota numa consulta de anestesia, onde estamos disponíveis para falar sobre tudo o que o doente quiser e não se esgota num folheto informativo. É fundamental falarmos abertamente sobre o que a anestesia é hoje, quais as expectativas e as dúvidas que as pessoas têm naquilo que ela representa na vida. Estamos a falar de uma coisa muito importante no dia-a-dia das pessoas, que não refletem muitas vezes ativamente sobre isso, mas partem do princípio que está assegurado. Ou seja, a intervenção da anestesiologia na vida das pessoas está lá, num lugar que as pessoas às vezes não veem muito bem.

E que não valorizam?
Às vezes não valorizam. Mas quando as pessoas passam pelas experiências e têm uma noção concreta daquilo que lhes aconteceu e do que ultrapassaram, valorizam. Mas é de facto, sobre a troca do valor que isso representa para as pessoas que é a pedra essencial. Que é falarmos uns com os outros, sobre as experiências que temos e o que isso representou para nós. Existem imensas ideias feitas à cerca da anestesia, a esmagadora maioria delas com grande índice de erro, mas que vai baixando cada vez mais. E o nosso papel é fazermos bem aquilo que sabemos e falar sobre isso todos os dias com os doentes. Mas não chega. É preciso abrir à sociedade, falar com as pessoas abertamente, ouvir as suas dúvidas e esclarecê-las sobre a qualidade da prática anestésica.

Quais são os principais receios. O de não acordar?
Eu diria que esse é o principal receio e que é talvez um dos menores riscos. É um risco completamente residual. Naquilo que é a anestesia geral, que é só uma parte daquilo que nós fazemos, o doente adormece e sente que perde o controle da sua vida. E é natural que ele tenha um medo intrínseco sobre o que é regressar às suas capacidades. Isso é uma coisa completamente natural e compreensível e está na mão do anestesista, explicar-lhe que esse é um risco pequeníssimo e que, claramente, passado umas horas ele vai estar connosco.

Medo também de regressar mas perder capacidades?
Eu penso que aí menos, pois são situações mais para doentes de alto risco, o que lhes é explicado. Ou então situações emergentes ou de grande risco de vida abinício. Para a esmagadora maioria dos doentes, esse risco é muito pequeno e não deve alimentar nenhuma ideia na cabeça das pessoas porque não tem dignidade para ocupar esse espaço.

Às vezes as coisas também correm mal?
Há sempre possibilidade de as coisas correrem mal. Mas isso é a exceção. E nós estamos cá para a exceção também. Somos treinados para responder à exceção e reiteramos o nosso treino para essa resposta. Mas as possibilidades de algo correr mal, quer do ponto de vista cirúrgico, do exame que é feito ou do ponto de vista anestésico podem sempre acontecer. A segurança reside no facto de as pessoas estarem treinadas para responder às situações críticas e sabem fazê-lo dentro da maior segurança. Ter um anestesista ao lado é uma segurança importante.

A expressão ‘vou a uma consulta de anestesiologia para saber se posso ser operado’ é correta?
Não. Quem indica a necessidade da cirurgia é a especialidade. O anestesista, em função de cada um dos doentes, procura estratificar o risco da condição física do doente versus a cirurgia que é proposta.

Mas um anestesista pode dizer que a anestesia não é aconselhada a um doente?
Não o deve dizer e não o diz. Aquilo que pode acontecer é, no limite, haver uma conversa com o cirurgião para discutir riscos/benefícios. Quando o risco de submeter um doente a uma anestesia para uma determinada cirurgia é capaz de superar o benefício da própria intervenção, isso deve ser discutido com o cirurgião. E depois devem ser os dois com o doente a decidir, porque este é um trabalho de equipa. Ou seja, não há cirurgia, exame ou procedimento terapêutico sem anestesia, mas esta também se esgota em si própria. E se os riscos são superiores aos benefícios, então deve ser apresentada uma outra solução ao doente. Deixe-me dar-lhe um exemplo no limite do que estou a dizer. Para tirar uma unha encravada, fazer uma anestesia geral com todos os riscos que eventualmente isso acarreta, é capaz de ser exagerado. E estes riscos para os doentes versus benefícios dessa intervenção ou procedimento terapêutico, ditam a nossa atitude numa consulta. E por isso, temos uma tabela de estratificação de risco que aplicamos aos doentes.

Referiu que a ação do anestesista é vasta. De que forma?
A anestesia é tudo. E com isso viabilizamos todos os procedimentos em bloco operatório, em unidades de cirurgia em ambulatório, que é hoje uma das grandes áreas sofisticadas da cirurgia. Ou seja, tornar a cirurgia mais acessível e os procedimentos mais rápidos em que as pessoas têm alta no próprio dia ou no dia seguinte, de uma forma segura e sem dor. E isto também foi possível graças ao trabalho das especialidades cirúrgicas, mas também ao nosso trabalho. A área da analgesia do trabalho de parto que marca a diferença na vida das mulheres tornando o nascimento dos bebés um momento mais digno e passível de ser experienciado com qualidade e segurança. Tudo o que é atividade de urgência e emergência, tudo o que é pré-hospitalar, tudo o que é dor, seja a aguda ou a crónica. E daí estarmos a fazer também 30 anos da nossa Unidade da Dor Crónica. A dor em geral traz sempre um compromisso importante da qualidade de vida das pessoas. Ela compromete as suas vidas em múltiplas áreas. E devolver a qualidade e a dignidade à vida das pessoas, seja em contexto de dor aguda ou crónica, é qualquer coisa de espantoso. São áreas super gratificantes para o anestesista, porque têm uma resposta muito rápida. Mas há também áreas novas que estão em evolução e crescimento como a ecografia clínica, tudo aquilo que é anestesia locorregional e bloqueios associados à dor. Temos múltiplas áreas de intervenção que torna a especialidade também muito atrativa.

E temos jovens a escolher esta especialidade?
Temos. E podemo-nos gabar de termos um serviço atrativo para os nossos internos. A especialidade é, neste momento, muito atrativa e é rapidamente escolhida nas primeiras vagas. Eu acredito que isso tem muito a ver com as múltiplas áreas em que exercemos ações neste momento. Somos uma especialidade transversal.

O que também contribui para os cativar?
Claramente. A especialidade tem 102 vagas e rapidamente serão preenchidas. Aqui no serviço temos três vagas. E há mais de 20 anos que formamos gerações de anestesistas. Temos uma excelente equipa que, mesmo curta para as necessidades, torna tudo possível e garante aquilo que verdadeiramente defendemos: a segurança, o conforto e a humanização dos atos.

 

Vamos falar de “como a anestesiologia mudou o mundo”

 

O Serviço de Anestesiologia da ULS Viseu Dão-Lafões vai organizar amanhã, a partir das 21h00, no Solar do Vinho do Dão, a conferência ‘Como a Anestesiologia mudou o Mundo’. A jurista Eugénia Galvão Teles e o sacerdote Gonçalo Portocarrero de Almada serão oradores nesta iniciativa, que convida à reflexão sobre a evolução da Medicina e, em especial, como esta área em específico transformou profundamente o cuidado e o tratamento das pessoas. A entrada é livre e o convite é lançado a toda a comunidade que queira perceber a importância da anestesiologia na vida de todos nós.

Qual é o principal objetivo desta conferência?
É tudo isto que acabamos de dizer. No início pensamos que podia ser um encontro científico, mas concluímos que seria um bocadinho mais do mesmo. Nós temos durante todo o ano imensos congressos de enorme qualidade e muito bem organizados. Mas achámos que era altura de um Serviço, que está maduro, com 55 anos, poder devolver alguma coisa à comunidade. Neste caso, devolver literacia e informação de qualidade. E para isso chamámos pessoas fora da área para falarmos sobre anestesia, sobre o que ela mudou nas suas vidas e no trajeto da história. Ou seja, misturar um bocadinho aquilo que é sociedade, ética, filosofia, ciência e fazer, aqui sim, uma receita qb. O resultado, esperamos nós, é dar à sociedade, à população que servimos, mais informação de qualidade e que nos conheçam melhor. E desta forma que saibam melhor a qualidade do nosso trabalho e aquilo que os espera quando vêm ao hospital, naquilo que é a anestesia.

Uma conversa que pode contribuir para tirar o anestesista da sombra?
Eu acho que pode e deve. Eu não gosto de falar de justiça porque não é disso que se trata. Mas gosto de falar naquilo que é inerente ao trabalho das pessoas. O trabalho que hoje desenvolvemos está a ganhar protagonismo e imagem porque o deve, porque é de qualidade, porque é empenhado, porque é um trabalho importante e viabiliza uma série de coisas essenciais à vida das pessoas. Isso nós já vamos vendo e quem já cá está há 30 anos consegue perceber essa diferença nas últimas décadas. É evidente que apesar de tudo, a nossa especialidade nunca é de primeiro plano. Só passa a ser uma especialidade de primeiro plano quando ela se torna importante para a vida das pessoas. Ou seja, quando estas têm dor e nós damos um passo em frente e as tratarmos. Por isso, não é uma questão de justiça! É a procura daquilo que é o nosso papel e de o esclarecer, em equipa, nos momentos críticos e importantes na vida das pessoas.

Outubro 15, 2026 . 15:45

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