Decidir em Tempos de Incerteza
As organizações deparam-se frequentemente com diferentes organismos, serviços e interlocutores que apresentam entendimentos distintos sobre o mesmo assunto.
O que hoje é considerado conforme por uma entidade pode amanhã ser questionado por outra. O que é reconhecido como adequado numa inspeção pode vir a ser contestado numa auditoria. O que é validado por um organismo pode mais tarde revelar-se insuficiente perante uma leitura diferente da mesma norma.
Perante esta realidade, o problema deixa de ser apenas jurídico ou administrativo. Torna-se, sobretudo, um desafio de governação e de liderança.
Todos os dias, os dirigentes são chamados a fazer escolhas com impacto na vida das instituições e dos seus destinatários. Agir com convicção torna-se cada vez mais difícil quando as mesmas regras admitem interpretações diferentes.
O resultado é o desenvolvimento gradual de uma cultura defensiva. Em vez de decidirem com base na missão, nas necessidades das comunidades e no interesse das organizações, muitos dirigentes acabam por orientar a sua ação pelo receio de uma futura contestação administrativa.
A preocupação deixa de estar centrada naquilo que melhor serve aqueles que as instituições apoiam e no cumprimento dos seus objetivos, passando a focar-se na solução que apresenta menor risco.
Esta lógica atrasa decisões, desencoraja a inovação e afasta as organizações do seu propósito maior de criar respostas que promovam a dignidade, a inclusão e a qualidade de vida daqueles que acompanham.
Paradoxalmente, à medida que se exige uma gestão cada vez mais profissionalizada, multiplicam-se os fatores que limitam a autonomia indispensável a uma atuação responsável e eficaz. Exige-se capacidade de decisão, mas nem sempre se criam as condições necessárias para o exercício responsável dessa competência.
Esta realidade ajuda também a explicar a crescente dificuldade em atrair e reter dirigentes. Poucos estão disponíveis para assumir cargos de direção quando o enquadramento é complexo, as exigências são elevadas e persiste a indefinição quanto ao modo como as decisões serão avaliadas.
Em muitas entidades sociais, a principal preocupação já não é apenas garantir recursos financeiros. É encontrar quem esteja disponível para assumir essas funções.
Não se trata de defender a ausência de controlo ou de fiscalização. A transparência, a prestação de contas e o rigor são pilares essenciais de qualquer organização.
O que está em causa é a necessidade de coerência institucional. Quem assume responsabilidades de gestão deve poder contar com normas claras, interpretações estáveis e orientações consistentes por parte das entidades.
A confiança nas instituições constrói-se também desta forma. Quando existe clareza quanto às regras e convergência de entendimentos, os dirigentes decidem melhor, as organizações atuam com maior autonomia e os recursos são canalizados para responder às necessidades de quem delas beneficia, reforçando aquilo que deve ser a prioridade de todos.
O excesso de controlo raramente se traduz em maior previsibilidade. Acaba por limitar a autonomia, a iniciativa e a capacidade de inovar. Quando a incerteza se sobrepõe ao dever de decidir, perde-se capacidade de agir, de evoluir e de criar valor.
Talvez tenha chegado o momento de reforçar uma cultura de confiança. É na confiança que as pessoas, as organizações e as comunidades encontram espaço para assumir responsabilidades, inovar e concretizar mudanças capazes de transformar vidas.
#TodasAsPessoasContam





