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Cientista Carlos Fiolhais critica uso da religião como oposição à ciência

O académico e cientista da área da Física Teórica Carlos Fiolhais lamentou hoje o crescimento de grupos organizados que utilizam a religião como forma de fazer oposição à ciência e propõe campos de diálogo entre as duas partes.

Esse é um dos temas do livro agora publicado, “Deus e a Ciência, diálogos para a salvação do mundo”, em que Carlos Fiolhais propõe conversas e aproximações entre as duas dimensões em vez do conflito, que tem aumentado devido ao radicalismo religioso.

“Há grupos, de facto extremistas mas com uma base religiosa, que querem interpretar a Bíblia literalmente e querem dizer, no fundo, que a Bíblia é um livro de ciência”, o que contraria todos os séculos da modernidade e a própria hierarquia religiosa católica.

Esses radicais transformam a Bíblia num “livro totalitário, que tem lá tudo, o que significa que a ciência não é precisa ou é apenas subsidiária para confirmar o que está já escrito”, afirmou o professor catedrático da Universidade de Coimbra, salientando que “essas atitudes são anticientíficas, porque isso nega a ciência” e a própria teologia.

“Essas pessoas estão equivocadas, tanto do ponto de vista científico como do ponto de vista teológico”, porque "toda a reflexão teológica séria implica a leitura dos textos sagrados no seu contexto".

“Nós devemos o nosso desenvolvimento, o nosso bem-estar e a nossa civilização à ciência (...), as pessoas parece que se esqueceram”, salientou o investigador.

A saúde, disse, “é um bom exemplo dos avanços da ciência”, mas há quem invoque questões religiosas “que não constam da Bíblia” para ter um discurso “anticientífico” que acaba por condicionar a própria sociedade, como os “movimentos negacionistas da crise ambiental e antivacinas”.

“É preciso defender a ciência, porque a ciência tem a ver com a racionalidade. A racionalidade humana, mas também a racionalidade do mundo, porque a humanidade tem se desenvolvido por causa desses avanços. O mundo de hoje não deve estar dividido entre ciência e religião, essa é a tese fundamental do livro”, defendeu.

“A ciência não pode estar isolada e não está isolada, relaciona-se com tudo na nossa vida, com a política, com a arte e também se relaciona com a religião, por formas que, por vezes, não são óbvias”, afirmou Carlos Fiolhais.

“Além de cientista, sou comunicador de ciência, gosto que as pessoas, de algum modo, percebam melhor o papel e o relevo da ciência como uma dimensão humana que se relaciona com outras dimensões humanas”, justificou o autor.

Para Carlos Fiolhais, “ciência e religião tiveram no passado, ainda têm infelizmente hoje, atritos, choques e colisões, mas (...) são duas dimensões diferentes, que não disputam o mesmo território mental”, porque "o ser humano é um território rico que pode ter em si, essa dimensão da racionalidade e a dimensão da fé”.

O investigador, doutorado em Física Teórica, recorda que muitos sacerdotes e religiosos contribuíram para avanços científicos e que os últimos dois Papas tinham formação científica.

“Há casos suficientemente elucidativos, e eu falo disso no livro, para percebermos que há essa compatibilidade, que é possível um diálogo rico” para as duas dimensões do ser humano, nomeadamente questões como o uso da Inteligência Artificial ou no campo da ética.

“É evidente que a ciência é que proporcionou a inteligência artificial”, mas "a diferença entre o bem e o mal não é uma coisa da ciência”, que “está longe de ser tudo na nossa vida”, exemplificou.

E para a ética, a tradição religiosa é “um grande contributo”, porque corresponde a hábitos e reflexões com o peso da história da humanidade.

“E é por isso, que no título do livro, falo em diálogos no plural”, porque “há várias disciplinas de ciência e há várias religiões e, portanto, há várias possibilidades de incitar essas conversas”, explicou Fiolhais.

No livro, o divulgador de ciência conduz o leitor pela história e pelos pontos de conexão entre as duas dimensões, com destaque para as questões éticas mais recentes sobre a atividade científica.

Setembro 26, 2026 . 12:20

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