
“Se cada cidade tivesse uma Sandra (Oliveira) a cultura seria mais rica”
A Galeria Venha a Nós a Boa Morte deixou o centro histórico da cidade de Viseu e ‘mudou-se’ para a Quinta da Cruz. Uma mudança marcada com a inauguração da exposição “Vestígios Somáticos” assinada por Andreia Santana, numa festa onde a cultura se afirmou como um setor essencial ao desenvolvimento da região e que juntou artistas, curadores, programadores e amigos.
Uma mudança que também contribui para reforçar o papel da Quinta da Cruz enquanto centro de arte contemporânea.
Emocionada, Sandra Oliveira, “o rosto e a alma da Venha a Nós a Boa Morte”, reconheceu as dificuldades sentidas ao longo de duas décadas de trabalho “num país pobre como Portugal”. Sublinhando que só com muito amor é que as coisas se fazem, Sandra Oliveira lembrou que “também é preciso haver algum eco político que entenda o valor intrínseco da criação para um país”.
“Nós temos feito esse trabalho há 20 anos. Fizemos um espaço com as nossas mãos e desta vez conseguimos um outro espaço por concurso público com as condições ótimas que estão a nível da nossa exigência profissional”, sublinhou.
Agradecendo à câmara por esta possibilidade, Sandra Oliveira apontou igualmente a importância de se realizarem “concursos públicos para que outras estruturas das artes performativas e visuais possam ativar os lugares que a cidade precisa”.
Recordando e agradecendo a presença de todos quantos marcaram a sua vida, pessoal e profissional, Sandra Oliveira desafiou os presentes a “tratarem bem as crianças que são o futuro deste país”. De que forma? “Dando-lhes consciência, empatia, conhecimento, pensamento e liberdade”. Um trabalho onde as artes assumem um papel essencial.
“Um trabalho intenso”
“A exposição ‘Vestígios Somáticos’ com que inauguramos este novo espaço, é fruto de um envolvimento e de um trabalho muito intenso”, considerou Sandra Oliveira, sublinhando que só desta forma se consegue criar.
Resultante de uma residência de Andreia Santana de dois meses em Viseu, este trabalho leva os visitantes numa viagem pela história dos bustos-relicários do Museu Grão Vasco ‘reinventados’ através de técnicas tradicionais certificadas a nível regional, incluindo a fundição de estanho, em molde de areia, e inspirada nos bordados de Tibaldinho.
Mas o que pretende Andreia Santana com este trabalho? “Convidar a uma reflexão sobre os artefactos como forças persistentemente contemporâneas que permitem o surgimento de outras formas interseccionadas de solidariedade e contaminação do tempo e do espaço. E assim, revelando novas substâncias, matéria e objetos como diferentes possibilidades de compreensão da história, da cultura e da coexistência entre espécies”.
Para a artista, que reconheceu o facto do trabalho em estanho ser uma prática certificada muito importante em Viseu, é preciso “haver mais apoio a nível municipal para as artes, para os artistas e para a produção”. Feliz pelo resultado de dois meses de dedicação, Andreia Santana admitiu que “se todas as cidades tivessem uma Sandra a cultura estava muito, muito melhor”.
E foi aplaudida de pé.
Um concurso a pensar nos artistas locais
Coube a Guilherme Gomes, assessor do presidente da Câmara de Viseu para a área da Cultura, explicar o porquê desta mudança da Venha a Nós a Boa Morte para a Quinta da Cruz e o que ela representa.
“Uma das coisas que nós percebemos quando chegámos à câmara, foi que havia falta de espaço para os artistas trabalharem”, reconheceu, considerando que “esta estratégia municipal está integrada no programaAtelier Viseu que procura criar espaços e torná-los acessíveis aos artistas.
A mudança da VNBM acontece através de um concurso que, exigiu ainda, um investimento da câmara no sentido de preparar o espaço para acolher exposições. E todos ficam a ganhar. A Galeria ganha um espaço com dignidade para mostrar o seu trabalho e leva o selo da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea para a Quinta da Cruz que reforça o seu papel enquanto centro de arte contemporânea.
Novo ciclo na Quinta da Cruz
"Queremos que este seja um novo ciclo para a Quinta da Cruz, que seja marcado por uma vitalidade muito grande e baseado num diálogo entre a Galeria Venha Nós a Boa Morte e a missão municipal de exposição na Quinta da Cruz. Um espaço que é muito mais do que arte e que merece ser vivido”, avançou.
Quanto à exposição, sublinhou o facto de se tratar de um trabalho que permite “conhecer as nossas raízes culturais e as práticas artísticas que precisam de ser, não só preservadas, mas que garantam um diálogo com o nosso tempo”.
De acordo com estas palavras esteve também o vice presidente da autarquia, Adelino Azevedo Pinto, que considera que “o espaço fica muito bem entregue”.
“Esta é uma porta que se vai abrir à cultura, um ponto de encontro para todos nós e para quem nos visita. Mas também para artistas consagrados e novos, e um lugar que cria esperança”, considera.






