
"Um prodigioso compositor, um observador astuto do nosso mundo"
Os músicos Camané, David Fonseca, Filipe Melo, Pedro Abrunhosa, Mário Delgado estão entre aqueles que recordam "a luz na Música de Jorge Palma", com a certeza de que as suas canções continuarão a ser cantadas, como também asseguram atores, historiadores, musicólogos.
Pedro Abrunhosa recorda madrugadas dos anos 1980, quando eram "quase adultos" e cruzaram "mãos e harmonias no piano do Hot Clube", com a música por "teto e chão".
"Há uma luz na Música de Jorge Palma que é espinha dorsal deste país", uma luz "que o há de ajudar a construir-se, porque não há Portugal sem o espelho translúcido, honesto, dos seus autores", escreve Pedro Abrunhosa, que lembra como encerrou muitos espetáculos "com esse sublime hino que é ‘Encosta-te A Mim’".
"Dediquei-lhe há três dias a última canção do meu concerto", lembra o criador de "Tudo o que eu te dou". "Não foi premonição. Foi respeito. Pelo homem e amigo que foi e pelo Músico que há de continuar a ser". E conclui: "Este país não faz ideia do quanto precisa de ti, Jorge! Encosta-te a nós. E obrigado! Mil vezes, obrigado!"
David Fonseca diz que a sua "admiração profunda" por Jorge Palma "tem várias frentes: prodigioso compositor, letrista e intérprete, um pianista fora de série, um poeta, um observador astuto do nosso mundo, todas as qualidades que o colocam há décadas como um dos maiores músicos de sempre do nosso país".
O que David Fonseca mais admirava, porém, "era a sua forma inconformada de estar, um espírito livre que não se encaixava em nenhuma prateleira possível".
"Num mundo tão formatado como o nosso, [Jorge Palma] seguiu o seu caminho único, igual a si próprio e a mais ninguém", prossegue David Fonseca. "Privei com ele e o meu nervosismo de eterno admirador era sempre desfeito pelo à vontade e simplicidade da sua forma de estar, a fazer-me sempre sentir um amigo de longa data. Por vezes, o nosso país consegue ter memória curta com os seus artistas, mas não no caso do Jorge. Presenciei muitas vezes o carinho e admiração absoluta que o público tinha com ele nas suas atuações e o silêncio imediato ao início de cada canção, como se não quisessem perder uma única nota do mestre. E também o aplauso ruidoso que se seguia quando parava [...]. Nunca te esqueceremos, Jorge".
O pianista Filipe Melo fala do "enorme desgosto por ter perdido um grande músico: por saber que já não vamos ter um disco novo ou assistir a um concerto do Jorge Palma". "Mas quando esse músico é também uma pessoa tão genuinamente boa, deixa-nos algo ainda maior - uma saudade profunda, e uma pena enorme de não estar com ele novamente".
O fadista Camané, na sua página oficial, recorda o "grande compositor, grande letrista, homem de cultura e da cultura, um amigo".
E Mafalda Veiga, que partilhou canções como "Imortais" e "Tatuagens" com Palma, publica uma fotografia em que o músico escreve na sua mão, garantindo: "Querido Jorge Palma, esta tatuagem será sempre eterna".
O guitarrista de jazz Mário Delgado, que se cruzou com o músico desde o início da carreira, lembra como "nunca deixou de ser aquele Palma ou aquele Jorge que sempre foi": "Estávamos lado a lado, depois de um teste de som para um concerto, quando uma jornalista, no meio desse momento de consolidação da sua carreira, lhe perguntou: 'De que é que tem saudades?' E o Jorge respondeu, sem hesitar: 'Dos tempos em que tocava na rua, em França'".
"Ele era mesmo assim", continua Mário Delgado. "No meio do reconhecimento, dos discos, dos palcos e de tudo aquilo que entretanto conquistara, havia nele uma espécie de fidelidade ao homem que tinha sido e à música que o tinha trazido até ali. O Jorge sempre foi o Jorge. E talvez seja precisamente por isso que merece a nossa maior vénia e todo o nosso incomensurável respeito".
O ator André Gago testemunha este lado de Jorge Palma. Reproduz uma fotografia sua de um dos corredores da estação do Metro Restauradores, em Lisboa, da curva onde o ouviu tocar: "Eras já uma lenda viva [...] e fez-me confusão que alguém já com tanta notoriedade se pusesse a tocar no metro. Com o tempo, fui percebendo cada vez melhor: a música era a tua respiração, circulava como o vento, entrava por cada janela e cada porta escancarada, do metropolitano de Lisboa ao Conservatório Nacional, dos estúdios e dos palcos às ruas de Paris".
O investigador Luís Freitas Branco, autor de "A Revolução antes da Revolução", que fala da música portuguesa que emerge no ano de 1971, a partir de álbuns de José Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco, entre outros, escreve hoje como "Jorge Palma foi o compositor do pós-25 de Abril, o trovador dos anseios, desesperos e amores do Portugal democrático", sendo porém "impossível restringi-lo a um período ou género", pois "dedicou a vida a fazer algo único, 'canções Jorge Palma', aquele génio melódico, espontâneo e visceral".
Para o musicólogo, "agora é fundamental pressionar os poderes públicos a abrir processos de classificação" da sua obra. E recordar álbuns como "o transcendente ‘Qualquer Coisa Pá Música’", que desapareceu do mercado. "E o mesmo para Fausto e outros" músicos portugueses, clama Freitas Branco, concluindo com um verso de Palma: "Ai, Portugal, Portugal/ De que é que tu estás à espera?"
A historiadora Raquel Varela destaca "a criatividade e a verdadeira visão poética da vida" de Jorge Palma, "um dos mais talentosos": "O piano, nos seus dedos, era um caudal de sons poderosos, de sensíveis melodias, uma extensão natural da sua voz grave e doce".
O apresentador Fernando Alvim afirma, por seu lado, que a vida de Palma "é muita e [vai ser cantada] mesmo depois deste dia", por "tudo o que fez, de uma forma tão pessoal e acutilante".
"Palma foi a pessoa a quem, em concerto, mais vezes ouvi dizer 'Palma, és o maior'. E a verdade é que era mesmo", conclui o apresentador.
O investigador de música portuguesa João Carlos Callixto, autor de "Na Terra dos Sonhos", obra dedicada aos poemas, à música e ao percurso discográfico de Jorge Palma, parafraseou um verso de Sérgio Godinho, para aludir à morte do músico: "Abriu a janela e voou".
Callixto, garante, irá sempre lembrar Jorge Palma "como um dos nossos maiores... 'Enquanto houver estrada para andar'".
Jorge Palma, um dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa, nasceu em Lisboa, em 04 de junho de 1950. Morreu na segunda-feira à noite, aos 76 anos.







