
Apoio-piloto torna alunos autistas mais participativos e recetivos
“Tivemos um feedback extremamente positivo”, diz à Lusa o presidente da Cooperativa Focus, Fernando Barbosa. “De ano para ano, vimos as crianças com perturbações do Espectro do Autismo a saírem cada vez mais da sua concha e a tornarem-se mais participativas e recetivas, reagindo melhor ao contacto com os outros e a novas experiências”, acrescenta Sofia Almeida, coordenadora de Educação Especial no Agrupamento de Escolas do Búzio, no referido concelho do distrito de Aveiro.
Carla Bastos é mãe de uma menina autista de 7 anos que beneficiou do Imparidades e conta que, embora o diagnóstico só se tenha confirmado quando a menina tinha 5, aos dois e meio já ela recebia acompanhamento médico e terapêutico da especialidade, por ser melhor “trabalhar por antecipação, antes de ser tarde demais para recuperar certas competências”.
Agora, o desafio é combater o seu desinteresse nas aulas. “Ela é muito inteligente e no final do primeiro período letivo já tinha atingido as competências do ano escolar todo, mas o problema é manter-se estimulada e, para isso, é preciso enriquecimento escolar que, ou não está disponível, ou implica terapias que, fora da escola, são muito caras”, conta a progenitora da Maria Miguel. “Com estes miúdos, as escolas estão preparadas para lidar com dificuldades cognitivas – não para lidar com capacidades a mais”, realça.
Ouvir música ainda é muito difícil para a Maria Miguel – porque “basta uma frequência diferente e ela descontrola-se” ou então as canções “fazem-na sentir emoções com que não sabe lidar” – mas o apoio do Imparidades nota-se no quotidiano, na rotina normal e até em atividades como aulas de natação e Taekwondo.
“Só posso dizer que, nos dias em que ela não tem acompanhamento da Focus, é mau. É mesmo muito mau”, desabafa a mãe. “Recusa-se a fazer os trabalhos, desiste de escrever se não fica perfeito, rasga as folhas, chora muito – é um caos!”, refere.
Tendo custado cerca de 172.000 euros ao longo de três anos, a fase-piloto do projeto Imparidades foi cofinanciada pelo programa da Área Metropolitana do Porto para apoio a comunidades desfavorecidas e permitiu financiar a contratação de dois terapeutas especializados para os alunos do Búzio, a aquisição de novos recursos técnicos e didáticos, e a formação ‘in loco’ de outros profissionais que, no agrupamento, também lidam com crianças e jovens com autismo.
No total, beneficiaram desses recursos adicionais 245 pessoas, entre as quais 64 alunos, o que, no universo dos cerca de 2.600 que frequentavam desde o pré-escolar até ao 12.º ano no agrupamento do Búzio, também reflete um crescimento do número de estudantes com Perturbações do Espectro do Autismo (PEA).
“Em Portugal não há estatísticas fiáveis sobre a taxa de prevalência das PEA, mas, extrapolando a partir dos principais dados internacionais, podemos estimar que em território nacional ela se situasse em cerca de 1% em 2008 e tenha aumentado para perto de 3% na atualidade. E o preocupante é que, mesmo perante essas evidências, o futuro destas pessoas não está a ser devidamente preparado nem se está a acautelar o que lhes vai acontecer depois de saírem da escola”, avisa o presidente da Focus.
Agora sem financiamento comunitário, a Câmara de Vale de Cambra assume apenas a contratação de um terapeuta ocupacional, no que conta gastar 42.000 euros até final de 2027, e a vereadora da Educação culpa o Estado por não cobrir a diferença.
“O Ministério parece estar a fugir às suas responsabilidades. Se as coisas têm evoluído, é só pelo empenho pessoal dos profissionais que dão uma carga brutal de horas extras à causa”, garante.
Carla Bastos admite que, no Centro Materno-Infantil do Porto, onde a filha Maria Miguel é acompanhada, “a equipa médica diz que ela está a ter um acompanhamento de excelência” na escola. Para Sofia Almeida, esse reconhecimento justifica, por sua vez, que o Agrupamento do Búzio esteja a receber “vários pedidos de transferência de famílias que têm os filhos noutros estabelecimentos de ensino da região e os querem trazer para Vale de Cambra”.








