
“A Feira do Vinho do Dão é em Nelas, mas não é de Nelas. É da nossa região”
Em Nelas, o vinho não cabe apenas numa garrafa e a Feira do Vinho do Dão também já não cabe apenas num concelho. É essa a leitura que o presidente da Câmara de Nelas, faz de um certame que chega à 35.ª edição com cerca de 40 produtores e que, ao longo dos anos, ganhou uma dimensão que ultrapassa as fronteiras do município.
A inauguração acontece hoje, com a presença do primeiro-ministro Luís Montenegro, num programa que se prolonga até domingo e que conta com a atuação de Rui Veloso, o grande cabeça de cartaz desta edição.
“Embora territorialmente a feira seja em Nelas, eu nunca entendi como se só fosse de Nelas. Para mim, é a Feira do Vinho do Dão. É em Nelas como podia ser em Aguiar da Beira ou em Gouveia”, confessou o autarca, em entrevista ao Diário de Viseu.
E, por isso, a presença dos produtores assume um papel central. Não apenas pela possibilidade de apresentar os vinhos ao público, lembra-nos o autarca, mas sobretudo pela oportunidade de estabelecer contactos profissionais e transformar a feira num espaço de negócios.
Distribuidores, sommeliers, empresários, supermercados e outros agentes do setor fazem parte do universo de contactos que os produtores conseguem alcançar nesta feira. “A feira é para os produtores venderem, para criarem as suas carteiras de clientes, para estabelecerem contactos com sommeliers, com distribuidores, com empresários, com circuitos agroalimentares e com agentes nacionais e internacionais”, explicou Joaquim Amaral.
Esse é um dos retornos mais importantes do certame. “O feedback que temos dos produtores é que vendem stock, mas, acima de tudo, conseguem contactos. E esses contactos podem transformar-se depois em negócios, em novos clientes e em novas oportunidades para os seus vinhos”, frisou.
Este ano, são mais de 40 produtores marcam presença no recinto. Um número que, para o autarca, traduz a vitalidade do setor e é também a principal garantia da qualidade da feira.

“Esta feira poderia estar organizada de uma forma fabulosa, ter uma logística espantosa e uma oferta cultural fora do comum. Mas não teria a excelência que tem se não tivesse os nossos produtores”, sublinhou.
Mas a feira não se esgota no negócio. Ao longo do fim de semana, provas, concursos, gastronomia, música e outras iniciativas procuram aproximar diferentes públicos do vinho e do território do Dão.
Aqui, a componente pedagógica assume igualmente importância, ajudando os visitantes a compreender as castas, o terroir e as características dos vinhos que estão a provar. “O vinho tem um mundo imenso e agrega cultura e o nosso território todo. E, portanto, vamos acolher os nossos visitantes e guiá-los nesta natureza”, explicou.
A dimensão do evento sente-se ainda fora do recinto. A restauração e a hotelaria registam forte procura e há muitos curiosos que aproveitam a deslocação para permanecer vários dias na região e conhecer outros pontos de interesse.
Para Joaquim Amaral, é aí que se percebe que a Feira do Vinho do Dão já produz efeitos muito para além dos limites de Nelas.
“Há gente que vem cá três ou quatro dias, mas não fica só em Nelas. Está no evento, aproveita e vai ao Museu do Caramulo, vai ao Museu do Grão Vasco, vai ao Museu Aristides de Sousa Mendes e fica no território”, afirmou.
O autarca resume o impacto numa ideia simples: “Há milhares de pessoas que nos visitam e que, de alguma forma, alavancam a economia regional, a economia local, mas a economia de toda uma região”, concluiu.
É nesse cruzamento entre promoção, negócio, cultura e território que Joaquim Amaral vê a força de uma feira que continua a querer crescer sem perder de vista aquilo que lhe dá nome: o vinho do Dão.
O vinho também se faz de conhecimento e memória
Há dois equipamentos que Joaquim Amaral considera fundamentais para o futuro do Dão e que vão muito além da realização da feira: o Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão e o Museu do Vinho e da Arte, em Santar.
O primeiro prepara-se para assinalar oito décadas de atividade e está a ser alvo de uma requalificação financiada através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Depois de dificuldades nos primeiros procedimentos de contratação, o projeto avançou com reforço do apoio do Ministério da Agricultura.
A intervenção, lembra o autarca de Nelas, deverá permitir devolver ao centro condições para reforçar a investigação, a produção de conhecimento e a sua transferência para aqueles que trabalham diariamente no setor.
“Não podemos ter uma região vitivinícola forte sem conhecimento. O centro de estudos tem 80 anos de história e tem uma função muito importante na investigação, na experimentação e na transferência de conhecimento para os produtores, para os enólogos e para os comerciantes”, destacou o presidente do município, Joaquim Amaral.
Apesar de a infraestrutura não ser propriedade municipal, cujo proprietário é a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, Joaquim Amaral defende que os municípios da região devem ter um papel ativo no seu futuro. Uma das propostas passa pela criação de um conselho consultivo que reúna autarquias do território do Dão.
A ideia é aproximar a estrutura de quem produz e de quem vive no território, garantindo uma participação regional na definição das prioridades da região.
Mas, ao lado do conhecimento está a memória. O Museu do Vinho do Dão e da Arte prepara a sua inauguração completa para o próximo mês de novembro.
O espaço pretende contar as mais bonitas histórias do vinho do Dão através da cultura, da tradição e da relação secular entre a produção vitivinícola e o território.
Mais do que guardar objetos, o objetivo é criar uma porta de entrada para compreender a região e aquilo que a distingue de outras tantas.
“O vinho tem um mundo imenso. E nós temos uma oportunidade extraordinária de mostrar essa história, essa tradição, essa ancestralidade e aquilo que é hoje o Dão”, considerou Joaquim Amaral.
“A Feira do Vinho do Dão não teria a excelência que tem se não tivesse os produtores”
“O Dão tem que estar sentado à mesma mesa com o Douro”
O Dão quer ganhar espaço à mesa das grandes regiões vitivinícolas nacionais. Para Joaquim Amaral, a qualidade dos produtores e enólogos da região justifica uma afirmação (ainda) mais forte, tanto no mercado português como além-fronteiras.
“O Dão tem que estar sentado à mesma mesa que o Douro e outras regiões emblemáticas. Nós temos produtores e enólogos de uma qualidade extraordinária e temos problemas que têm de ser reconhecidos. Temos que conseguir afirmar-nos e estar nos mercados onde os nossos vinhos merecem estar”, defendeu o presidente da Câmara Municipal de Nelas.
A internacionalização surge, assim, como uma das prioridades. O município tem procurado criar contactos com potenciais mercados, entre os quais o México, através da respetiva embaixada.
Também existem contactos com outras regiões produtoras, enquanto o mercado norte-americano é encarado com maior cautela devido ao atual contexto comercial.
Por essa razão, a capacidade de gerar negócio passa pela exportação. Na própria Feira do Vinho do Dão, Joaquim Amaral vê uma oportunidade para os produtores estabelecerem relações comerciais e encontrarem novos clientes e parceiros.
“É para os produtores venderem, criarem carteira de clientes, estabelecerem contactos com sommeliers, distribuidores, empresários, supermercados, circuitos agroalimentares, agentes nacionais e internacionais. E isso é muito importante”, refere.
A aposta passa igualmente por encontrar novas formas de valorizar o produto.
Num setor sujeito à concorrência e a dificuldades de escoamento, o autarca defende que o vinho deve ser associado a outras atividades e produtos, da gastronomia ao turismo.
A diversificação pode passar por outros produtos associados ao vinho, mas também pela valorização da experiência ligada ao território.
A ideia, frisou, é criar diferentes formas de consumo e de contacto com o Dão. Daí o enoturismo, uma estratégia onde o vinho é a porta de entrada para descobrir, sentir e conhecer toda a riqueza e a identidade da região.
“Temos que conseguir afirmar-nos e estar nos mercados onde os nossos vinhos do Dão merecem estar”, resumiu o autarca.







