Última Hora

Ferrovia - Crime e Castigo

Agosto 25, 2026 . 07:00
O governo português acaba de apoiar o governo espanhol no futuro condicionamento das exportações portuguesas para a Europa, através da manutenção da bitola ibérica nas ligações ferroviárias entre os dois países, o que representa uma verdadeira traição ao futuro da economia portuguesa, que justificaria a prisão e a condenação dos responsáveis, já que por muito menos estão as prisões cheias.

Vejamos as causas e as consequências:

1 - Em Novembro de 2003 os governos de Portugal e de Espanha, de Durão Barroso e de Aznar, acordaram na Cimeira da Figueira da Foz construir uma rede ferroviária entre os dois países, com o apoio financeiro de Bruxelas e em bitola europeia, de acordo com o plano europeu do Corredor Atlântico, o qual entraria em Portugal pelo Norte em direccção a Aveiro, depois Lisboa e daí ao Caia, na fronteira com a Espanha.

2- Passaram os anos sem que Portugal desse execução ao acordado, enquanto o governo espanhol construiu cerca de 3000 quilómetros de ferrovia em bitola europeia com um forte apoio de fundos comunitários, privilegiando as ligações a França das regiões espanholas com maior desenvolvimento industrial, a Catalunha e o País Basco. A primeira ligação da Catalunha está operacional há alguns anos, bem como a ligação a Madrid. No País Basco a Ligação por Irun está prevista entrar em funcionamento em 2030. Posteriormente, os governos espanhóis decidiram continuar a linha desde Barcelona até Valência e está agora em construção a continuidade do chamado Corredor Mediterrânico até ao porto de Algeciras. Tudo em bitola europeia e para passageiros e mercadorias.

Ou seja, os governos de Espanha aproveitaram a inação dos governos portugueses para abandonar o corredor Atlântico, privilegiando as suas regiões mais industriais e as ligações aos seus portos. Mas fizeram mais, sabedores do protecionismo existente na ferrovia francesa, abriram o mercado espanhol às empresas ferroviárias francesas, com reciprocidade para os comboios espanhóis em França, política que conduziu a uma dramática redução dos custos do transporte ferroviário e ao quase desaparecimento do transporte aéreo.

3-Portugal seguiu o caminho oposto. Com vista à geringonça, o primeiro governo de António Costa acordou com o PCP privilegiar a manutenção da CP no domínio público e aceitou a “protecção” da empresa da concorrência internacional, através da manutenção da bitola ibérica. Decisão contrária do governo do mesmo PS de José Sócrates, que tinha encomendado um projecto chamado “ELOS” para uma nova linha de via dupla e bitola europeia entre Lisboa (Poceirão) e o Caia, com futura ligação a Sines.

Projecto cancelado pelo governo de Passos Coelho, com a justificação das dificuldades financeiras existentes. O custo inicial deste projecto de engenharia foi de cerca de 120 milhões de euros, o qual ainda não foi pago, apesar de Portugal ter perdido o processo em tribunal e o custo, capital e juros, já andar próximo dos 200 milhões de euros.

3-Não sei se as negociações com o PCP foram realizadas por Pedro Nuno Santos, mas sabemos que os governos de António Costa levaram anos a mentir aos portugueses para justificar a mudança da bitola e a alteração do projecto inicial de bitola europeia para bitola ibérica, via única e só para passageiros, com o esquecimento da ligação a Sines. Fizeram-no com a justificação de que os espanhóis não faziam as ligações na fronteira e que mais tarde se mudaria para a bitola europeia, seria só uma questão de parafusos, disse António Costa. Versão que me foi afirmada pessoalmente pelo ministro Pedro Nuno Santos em reunião havida no ministério.

4-De forma impensável, o governo da AD aceitou as teses do PCP de manutenção da bitola ibérica e de protecção da CP e aceitou agora publicamente a manutenção definitiva da bitola ibéria nas ligações entre os dois países, o que representa a aceitação da estratégia espanhola de condicionar o acesso da ferrovia portuguesa além Pirenéus. Ou seja, o governo espanhol tem agora a porta aberta não apenas para controlar as exportações portuguesas concorrentes das empresas de Espanha, como para dominar o transporte ferroviário em Portugal com a entrada das empresas espanholas. Além de estarmos a adquirir o lixo ferroviário sem uso em Espanha.

5-Mas não só, em vez do financiamento da União Europeia de cerca de 85% do custo, o governo da AD reinventou as parcerias público/privadas para serem os contribuintes portugueses a pagar em trinta anos os investimentos previstos na ferrovia, algo como vinte mil milhões de euros, valor semelhante a todo o PRR. Esta incrível decisão de um governo português não pode ser apenas ignorância e ficamos por saber quem são os beneficiados. Espero que um dia, feitas as contas e avaliados os resultados, o ministro Pinto Luz tenha de explicar quem são.

Notas: Os nossos antepassados do século XIX não traíram o interesse nacional como fazem agora os governantes do PS e da AD, eles tinham consciência da história dos dois países ibéricos e fizeram a ligação a Paris pelo Norte, recusando a passagem por Madrid. Outros tempos, outro patriotismo.

Agosto 25, 2026 . 07:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Seguir
Receba notificações sobre
0 Comentários
Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right