Última Hora

Partidarização do Estado

Julho 21, 2026 . 13:45
Tenho bastante simpatia pelo ministro da Educação Fernando Alexandre, que no contexto dos diferentes governos que temos tido, considero ser um bom ministro.

Razão de pensar excessiva a campanha que está a ser levada a cabo contra ele com base no tema da digitalização dos exames e dos problemas envolventes.

Há várias razões para considerar que o debate político sobre os problemas havidos está fora do contexto adequado e que os problemas encontrados resultam mais da ausência de organização do Estado do que culpa do ministro e pelas seguintes razões:

1-Num país normal cada ministro define as acções a desenvolver e o seu timing e delega na administração pública a sua execução através de uma direcção geral e sob o controlo de um secretário de Estado, porque os diferentes ministros não têm de ser especialistas da execução de tudo aquilo que decidem. Não é essa a sua função. Na versão portuguesa, para alegria das oposições que se afadigam a pedir a demissão dos ministros, estes são sempre culpados de quase tudo. Quando o verdadeiro problema resulta da inexistência de directores gerais profissionais de carreira, em vez das nomeações partidárias de gente sem experiência e sem continuidade no cargo. De facto, os ministros são responsáveis pelas políticas do programa dos governos e pela sua aplicação, mas só podem ser acusados de aceitarem o cargo sem as condições mínimas de competência dos quadros da administração pública, para mais sabendo que no fim do dia os resultados lhes cairão em cima.

2- Neste caso existe um outro problema que resulta da partidarização excessiva da vida política, com reflexos nas diferentes classes profissionais da administração pública, dividida em sindicatos de base ideológica. Recordo o dia em que perdi uma grande parte do respeito devido à classe dos professores, quando assisti a muitos deles deitados no chão em frente à entrada de algumas escolas para impedir que os professores não grevistas dessem aulas. Claro que eu sei que se tratou apenas de alguns, mas provavelmente os mesmos que fizeram o possível para agora boicotar a prometida reforma. Tendo seguido o que tem sido afirmado nas diferentes televisões, não podem restar quaisquer dúvidas.

3- Uma outra questão resulta do estado de inconsciência e de ignorância cívica e política a que chegaram os partidos em Portugal.

Detentores de um poder excessivo, nomeadamente o poder de escolherem os deputados e demais representantes do povo, roubando esse direito aos eleitores, a sua qualidade e seriedade já viu melhores dias, o que torna os escolhidos para a administração pública servidores passivos dos interesses das diferentes máquinas partidárias.

Neste caso, uma boa ideia que partiu do PS, destinada a uma reforma necessária e há muito realizada noutros países, as oposições não deixaram de enveredar pela habitual chicana mediática, pensando que isso lhes trará alguns votos. Com a nota de que as oposições se consomem a atacar tudo o que é realizado, sem critério definido e sem nunca apresentarem quaisquer alternativas.

Repito, este ministro teve o mérito a a coragem de avançar com esta reforma que se sabia ser necessária, quando poderia não ter corrido esse risco e deixar a proposta na gaveta, como o PS fez com quase tudo durante oito anos. As chicanas mediáticas sistematicamente promovidas por todos os partidos da oposição demonstram à saciedade as razões do atraso de Portugal no contexto das outras nações europeias. Com a certeza de que se no governo estivesse o PS o problema seria o mesmo, teria a oposição sistemática do PSD.

Portugal vive uma grave encruzilhada política, vítima de um sistema político de falsa democracia, onde o poder excessivo dos partidos deriva da escolha partidária de todos os dirigentes do Estado, sem a competência e a continuidade que poderia ser garantida por verdadeiros profissionais de carreira. Trata-se de um modelo de gestão do Estado que privilegia as nomeações partidárias de boys de duvidosa competência, mas que permite aos partidos controlar as mais diversas funções do Estado.

Em resumo, depois de muitos anos em que muitos portugueses sonharam com a existência de partidos políticos, chegámos ao ponto em que os partidos estão a destruir o Estado e a Nação.

Julho 21, 2026 . 13:45

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Seguir
Receba notificações sobre
0 Comentários
Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right