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Opinião

A resposta que adiei

Julho 21, 2026 . 10:00
Há uns meses, escrevi aqui sobre um copo de água. Sobre como o problema nunca é o peso do que carregamos, mas o tempo que o seguramos sem descansar.

Terminei esse texto com uma pergunta que, na altura, não quis responder: o que é que continuo a segurar, não porque é pesado, mas porque ainda não tive coragem de pousar?

Escrevi que não valia a pena deixar a resposta para amanhã. Demorei três meses a encontrá-la. Aqui está ela.

Esta é a quadragésima primeira crónica que assino neste espaço. A primeira saiu a 16 de dezembro de 2024; desde então, cá estive de quinze em quinze dias, numa segunda-feira sim, outra não. E antes de continuar, tenho uma confissão a fazer, talvez a maior de todas: cada texto que parecia escrito para quem me lê foi, primeiro, escrito para mim.

Quando falei da armadilha do conforto, era do meu conforto que eu precisava de fugir. Quando escrevi sobre a coragem de ser vulnerável, era a minha coragem que estava a treinar. Os leitores foram, talvez sem saber, os companheiros de uma caminhada que também era minha. E é por isso que este texto é diferente dos outros: vou fazer um intervalo.

Não é cansaço da escrita, que continua a ser dos lugares onde me sinto viva. É coerência. Passei quarenta crónicas a escrever sobre pausas, sobre tempo, sobre a liberdade de escolher, e seria estranho continuar a segurar o copo só porque sempre o segurei.

Também na escrita, também em mim, há um tempo de dizer e um tempo de escutar. E eu quero agora escutar: o silêncio, a vida, as histórias que ainda não aconteceram e que hão de ser, um dia, novas crónicas.

Levo daqui mais do que deixei. Aprendi que o maior património de qualquer percurso são as pessoas que nos rodeiam. Que a dor, às vezes, é o mestre que nos acorda. Que mesmo quando não escolhemos o que nos acontece, ainda temos escolha. E que ser livre, no fim de contas, é não deixarmos de ser nós. Quem me acompanhou desde o início reconhecerá nestas frases os títulos de alguns dos nossos encontros.

Não estão aqui por acaso: são pedaços de um caminho que fizemos juntos.E escrevi aqui, um dia, que o poder passa e a essência fica. Que somos apenas instrumentos temporários dos lugares que nos são confiados.

Não imaginava, quando o escrevi, quão de perto viria a sentir essas palavras. Hoje agradeço-lhes: ensinaram-me que se pode sair de um lugar sem se sair de si. Também esta rubrica foi um lugar que me foi confiado. Devolvo-a com gratidão, e de essência inteira.Isto não é um adeus.

Quando escrevi sobre o copo, escrevi também que pousá-lo exige confiar que o podemos voltar a pegar depois, com outra consciência, com outro equilíbrio, com outra clareza. É com essa confiança que pouso este. Não sei quando voltarei a pegar-lhe.

Sei que a vontade cá ficará, inteira. E enquanto não volto, deixo a herança possível: a mesma pergunta que demorei três meses a ter coragem de responder. Agora é a vez de todos nós: O que andamos a segurar há demasiado tempo, só porque ainda não nos demos licença para pousar? Até já.

Julho 21, 2026 . 10:00

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