
Hospitais da Universidade de Coimbra atingem barreira dos quatro mil transplantes renais
Os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) alcançaram a marca dos quatro mil transplantes renais no dia 9 de junho, no âmbito do programa que teve início em 1982, anunciou ontem a unidade hospitalar.
«O significado é o acumular de uma série de transplantação que se iniciou em 1982 e que tem vindo a demonstrar-se como uma mais-valia de grande importância para os doentes», considerou o diretor do serviço de Urologia e Transplantação Renal.
Segundo Arnaldo Figueiredo, além do simbolismo da marca, a ocasião visa também sensibilizar a população para as mais-valias da transplantação e para a «necessidade de se cuidar da saúde».
«Melhor do que ser transplantado é não precisar de ser transplantado. Não é uma panaceia. A transplantação impõe também um esforço coletivo de parceria, em que há múltiplas especialidades envolvidas», indicou, salientando a «necessidade de os doentes também se empenharem».
Foi o caso de José Alfredo Costa, de 70 anos, – o 4.000.º transplantado nos HUC – que, para realizar a cirurgia, teve de perder peso. «Era muito importante. Tive de baixar nove quilogramas, que é fundamental», contou o residente no concelho de Soure.
Para José Alfredo Costa, que começou há três anos e meio a fazer diálise peritoneal e, em janeiro, hemodiálise, o transplante «não foi difícil» e «mudou muita coisa» na sua vida. «Mudou a liberdade de andar, a alimentação», descreveu, acrescentando que «agora há outros cuidados, diferentes, mas é melhor».
Também Afonso Neto, de 62 anos, residente em Leiria, recebeu um rim há 14 anos, doado pela mulher, que foi uma mudança «em termos de qualidade de vida e, mais tarde, a desenvolver a atividade profissional sem qualquer restrição». «É o começo de uma nova vida. Foi ali feito um parêntesis e avançámos até aos dias de hoje», reconheceu.
Afonso Neto, que era militar da GNR, disse que, com o transplante, o problema renal «ficou resolvido, até esta data», e que não tem restrições, mantendo cuidados com a alimentação e atividade física moderada.
Para a esposa Susana Neto, de 60 anos, a decisão não foi difícil e «foi praticamente uma situação imediata», ao perceber, numa consulta, que podia ser dadora. «Saímos da consulta e fomos fazer os testes. Sem medos», recordou.
Quatro a cinco anos de espera por transplante
A Unidade Local de Saúde de Coimbra (que integra os HUC) é Centro de Referência Nacional para transplante renal de adulto desde 2016 e, em Portugal, o centro com «maior atividade de transplantação renal acumulada e a cada ano», segundo o diretor do serviço de Urologia e Transplantação Renal.
«O recorde da nossa unidade foram 178 transplantes num ano, há cerca de 10 anos. Temos mantido uma média à volta dos 130», assinalou.
Arnaldo Figueiredo apontou que «a doença renal crónica é quase uma inevitabilidade, atendendo a que o rim envelhece e há fatores que o agravam, alguns genéticos e outros comportamentais», como desvios alimentares, hipertensão, tabagismo ou sedentarismo.
Uma vez chegados à doença renal crónica, e para se conseguir que o transplante tenha sucesso, o doente «tem que depois empenhar-se em criar as melhores condições para seu próprio benefício», referiu o médico, salientando que há «uma responsabilização enorme».
«A pessoa tem a obrigação, a responsabilidade, perante a sociedade e os outros que o não receberam em detrimento dele, de ter os cuidados adequados», observou.
Segundo Arnaldo Figueiredo, a média de espera para um transplante «anda nos quatro, cinco anos», podendo variar em função de fatores como o grupo sanguíneo, o ajuste da idade entre o recetor e o dador e o tempo de diálise.
«Há cerca de 13 mil doentes em diálise em Portugal, mas há cerca de dois mil doentes em lista de espera. Em Portugal, fazem-se cerca de 500, 600 transplantes por ano», referiu.
Arnaldo Figueiredo indicou ainda que a sobrevida de um órgão transplantado «ultrapassa os 10 anos».








