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O dia em que Viseu (voltou) a parar para ver as Cavalhadas de Vildemoinhos (c/ fotos e vídeo)

Promessa com mais de três séculos voltou a cumprir-se esta quarta-feira. Entre cavaleiros, carros alegóricos e grupos tradicionais, milhares de pessoas acompanharam um dos momentos mais emblemáticos do São João na cidade

Quando avistámos os primeiros cavaleiros na avenida Alberto Sampaio, já uma cidade inteira os esperava. Vindos da Capela de São João da Carreira, onde tinham cumprido a promessa que deu origem às Cavalhadas há mais de 370 anos, encontraram ruas cheias de gente, telemóveis erguidos e os primeiros aplausos de um dia em que Viseu voltou a parar para ver passar a tradição.

O céu apresentou-se um pouco cinzento, mas isso pouco importava para os milhares de pessoas que se distribuíam ao longo deste bonito percurso. Crianças sentadas nos ombros dos pais, famílias inteiras nos passeios e muitos curiosos procuravam o melhor lugar para acompanhar um dos momentos mais emblemáticos das festas de São João da cidade, onde a história, a devoção e a criatividade não deixam de caminhar lado a lado.

Como não poderia deixar de ser, à frente do cortejo seguiam os cavaleiros, símbolo maior da promessa feita pelos habitantes de Vildemoinhos a São João Batista em 1652. Logo atrás, os Zés Pereiras, bem acompanhados pelos “seus” cabeçudos e os grupos convidados, enchendo as ruas de música e ritmo.

Os primeiros carros recuperavam ofícios e tradições de outros tempos. Um carro dedicado à costura de antigamente, outro ao sapateiro, e ainda um terceiro com fumeiro tradicional, panelas de ferro e pão cozido em forno de lenha. São memórias de uma ruralidade que marcou durante gerações a vida desta comunidade.

Da memória passou-se à atualidade. Seguiu-se um dos carros mais simbólicos da edição deste ano. Construído por crianças e jovens, colocava frente a frente os jogos tradicionais e o universo digital, numa reflexão sobre a passagem do tempo e as diferentes formas de brincar.

Mas as raízes de Vildemoinhos voltaram rapidamente ao cortejo. A homenagem aos moleiros não faltou. Afinal, é precisamente nos moinhos que reside parte da identidade da localidade e da própria história das Cavalhadas.

Pouco depois surgiu uma das distinções mais recentes da associação, com a passagem do carro que celebra o 3.º lugar alcançado pelas Cavalhadas de Vildemoinhos nas 7 Maravilhas da Cultura Popular Portuguesa. Logo atrás seguia o carro dos 50 anos da APPACDM de Viseu.

A partir daí, o cortejo entrou definitivamente no universo da fantasia. Um imponente carro decorado com flores brancas roubava a atenção pela elegância e delicadeza dos detalhes.

Logo depois surgiu um baloiço com uma querida menina, acompanhado por um pavão de grandes dimensões, de cauda delicada e cheia de flores. E aí somos também surpreendidos por um cavalo branco com asas, preenchido por detalhes azulado, que parecia flutuar sobre o público.

Mas havia ainda mais para descobrir. Outro dos carros mais comentados apresentava dois pássaros a proteger um ninho onde repousavam duas crianças, rodeadas por flores e elementos da natureza. Uma imagem inspirada na ideia de proteção e pertença, simbolizando a forma como as Cavalhadas acolhem as novas gerações. E foi então que chegou um dos momentos mais comentados. Um carro com uma raposa, um menino, um coelho, cogumelos e flores coloridas. O conjunto transformava-se numa espécie de cenário saído de um conto infantil.

À sua passagem multiplicavam-se os telemóveis apontados ao cortejo e os comentários de admiração. Nem isso, porém, esgotava as surpresas da tarde. Uma gigantesca boneca de trapos, com um vestido verde coberto por flores bordadas à mão, prestava homenagem ao trabalho desenvolvido por dezenas de pessoas ligadas às Cavalhadas.

Muitos dos bordados que ornamentavam a figura tinham sido produzidos ao longo dos últimos meses por quem ajuda a manter viva a tradição. E bem perto do final, o cortejo mudou de cenário. O público foi surpreendido por um universo marítimo dominado por uma baleia, golfinhos e uma raia em movimento.

E, por isso, mais do que um desfile, as Cavalhadas voltaram a mostrar o espírito de uma comunidade que trabalha durante meses para levar às ruas aquilo que considera ser o seu maior património: uma promessa cumprida há mais de três séculos, uma tradição transmitida entre gerações e um orgulho coletivo que continua a encontrar no dia 24 de junho a sua maior expressão.

Participaram na edição deste ano a Associação Filarmónica de Vilar Seco, de Nelas, os Bombos Os Canelenses, de São Cipriano, a Associação Família Peixoto, os Bombos de Paradinha, a Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez, o Grupo de Bombos Os Amigos de Caíde de Rei, a Fandarra de Oliveira do Douro e, claro, o Grupo Etnográfico As Tricanas de Vildemoinhos e o Lusitano Futebol Clube de Vildemoinhos.

Junho 24, 2026 . 16:43

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