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Opinião

O maior património

Junho 22, 2026 . 21:30
Durante muitos anos acreditei que um bom empresário tinha de ser bom em tudo. Hoje, passados 26 anos desde que iniciei o meu percurso empresarial, sei que essa foi uma das maiores ilusões da minha vida.

Tinha 26 anos quando comecei esta viagem. Curiosamente, passaram agora exatamente 26 anos e, olhando para trás, percebo que a palavra que melhor descreve tudo o que aconteceu não é liderança, nem gestão, nem sequer empreendedorismo.
É co-construção.

Quando somos jovens, é fácil acreditar que um empresário deve ser capaz de fazer tudo: pensar a estratégia, identificar oportunidades, negociar, gerir pessoas, compreender finanças, tomar decisões rápidas, resolver problemas e antecipar crises. A vida, porém, encarrega-se de nos ensinar que as coisas raramente funcionam assim.

Ao longo destes anos aprendi muitas lições, mas talvez uma das mais importantes tenha sido esta: ninguém constrói nada de relevante sozinho.

É curioso como, quando observamos uma empresa bem-sucedida, tendemos a procurar um rosto. Um fundador, um líder, alguém a quem possamos atribuir o mérito daquilo que foi alcançado. Gostamos da história do herói. É simples, inspiradora e fácil de contar. O problema é que raramente corresponde à realidade.

Por trás de cada empresa existe uma rede invisível de pessoas que pensam de forma diferente, possuem talentos distintos e veem aquilo que os outros não veem. Porque o que um vê, outro ainda não viu. O que um imagina, outro concretiza. O que um receia, outro enfrenta. O que um começa, outro ajuda a terminar. E aquilo que parece o mérito de uma pessoa é, muitas vezes, o resultado da competência coletiva de muitas.

Confesso que esta não foi uma aprendizagem imediata. Passei anos a acreditar que precisava de ter resposta para tudo, decidir tudo e compreender tudo. Até perceber que a verdadeira liderança não está em saber nem em controlar tudo; está, essencialmente, em saber ouvir e confiar.

Também não está em ser a pessoa mais inteligente da sala. Está em rodearmo-nos de pessoas que sabem aquilo que nós não sabemos.

Com o tempo, percebi que algumas das pessoas mais importantes do meu percurso não foram aquelas que pensavam como eu. Foram precisamente as que pensavam de forma diferente; as que me desafiaram, identificaram riscos que eu não via, encontraram soluções que eu nunca teria encontrado sozinha e completaram limitações que eu própria desconhecia ter.

Talvez por isso tenha começado a olhar para a palavra "sociedade" de forma diferente. Já não vejo apenas contratos, quotas ou participações. Vejo pessoas que decidiram caminhar juntas, confiança, complementaridade e a coragem de reconhecer que ninguém é suficientemente bom em tudo, mas que várias pessoas, juntas, podem ser extraordinárias.

Num tempo em que tantas vezes se glorifica o sucesso individual, vale a pena recordar uma verdade simples: as maiores realizações da humanidade nunca foram obra de uma única pessoa. Foram resultado da colaboração entre talentos complementares, da confiança mútua e de pessoas imperfeitas que decidiram construir algo em conjunto.

Talvez seja por isso que o futebol nos oferece tantas vezes lições de vida. Num campeonato do mundo, nem sempre vence a equipa que reúne os melhores jogadores. Muitas vezes vence a equipa que melhor joga em conjunto, que confia, que se complementa e que coloca o objetivo coletivo acima do brilho individual.

Durante muitos anos pensei que o maior património de uma empresa estava nos seus ativos, nos seus clientes ou nos seus resultados. Agora apercebo-me de que o maior património de qualquer projeto são as pessoas que o constroem connosco. Talvez seja por isso que, quando olho para estes 26 anos, não penso apenas no que foi construído. Penso sobretudo em quem ajudou a construir.

E sinto uma profunda gratidão por essa co-construção.

Junho 22, 2026 . 21:30

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