
Visita de Trump à China testa capacidade de diálogo
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inicia na próxima semana uma visita a Pequim para se reunir com o homólogo chinês, Xi Jinping, num teste à capacidade de conciliar interesses divergentes entre Washington e Pequim.
Nos últimos dias, têm-se multiplicado os sinais de que a visita será marcada pela procura de compromissos económicos, comerciais e estratégicos, incluindo Taiwan e a crise no Irão. Apesar das incertezas no Estreito de Ormuz, Trump mostrou determinação em avançar com a viagem, afirmando esperar um “grande abraço” de Xi.
A agenda deverá ser dominada pelo comércio. A expectativa é que seja prolongada a trégua na guerra comercial acordada em outubro de 2025, com continuação das exportações chinesas de terras raras e compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos em troca de alívio parcial de tarifas. Trump procurará compromissos de grande escala, incluindo aquisições chinesas de aviões da Boeing, semicondutores e energia, segundo o grupo de reflexão (‘think tank’) norte-americano Brookings Institute.
O Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, minimizou as expectativas de um grande quadro de investimento bilateral, sugerindo que a visita serviria como um “espaço” para discutir “questões pontuais relacionadas com investimentos”.
Para Pequim, a prioridade é estender a trégua, manter o acesso à tecnologia norte-americana e evitar restrições adicionais às exportações.
Taiwan é outro tema central. Pequim poderá tentar obter concessões na linguagem declaratória dos EUA sobre a ilha, mas não deverá exigir alterações drásticas.
Citado pela revista Time, Drew Thompson, ex-diretor para China, Taiwan e Mongólia no departamento de Defesa dos EUA, disse estar “cético quanto a resultados concretos”. Citado pela mesma publicação, Allen Carlson, especialista em estudos chineses na Universidade de Cornell, concordou: “A probabilidade de qualquer resultado substancial é praticamente zero”.
Questões globais e crises regionais, como a situação no Irão, deverão ser abordadas, ainda que não constituam o foco principal.
O secretário do Tesouro dos EUA e outros responsáveis já impuseram sanções a empresas chinesas ligadas ao Irão, enquanto Pequim mantém ferramentas legais e económicas para proteger os interesses das suas empresas no exterior. A inteligência artificial e o controlo de armamento nuclear também poderão surgir nas discussões, mas o Brookings Institute considera improvável que surjam avanços significativos.
Os Estados Unidos procuram limitar a exposição a setores estratégicos, incluindo veículos elétricos e semicondutores, enquanto Trump continua a encorajar investimentos chineses que gerem empregos nos EUA. “Se vamos obter investimento chinês significativo nos EUA, provavelmente será em áreas como veículos elétricos ou baterias, o que representa riscos para a segurança nacional”, alertou Chris McGuire, do Council on Foreign Relations, citado pelo Brookings Institute.
A visita deverá ser seguida de outros encontros entre Trump e Xi ao longo do ano, incluindo uma possível visita de Estado de Xi a Washington em setembro, a deslocação de Trump a Shenzhen para a cimeira da APEC (Fórum Cooperação Económica Ásia – Pacífico) em novembro e o regresso de Xi a Miami em dezembro para o G20.
Segundo a agência France Presse, a China deverá privilegiar resultados concretos, como a manutenção da trégua comercial e a redução das tarifas, evitando pressionar excessivamente sobre o conflito no Irão, onde Pequim tem influência limitada. A consultora Economist Intelligence Unit (EIU) afirmou que “o que a China precisa é que Donald Trump cumpra a promessa de diálogo, com pelo menos alguns resultados concretos”.
Citado pela AFP, Benjamin Ho, da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam em Singapura disse que Pequim procurará progressos tangíveis, mesmo modestos.
Especialistas destacam que Xi entra na reunião numa posição confortável, com reservas energéticas elevadas e estratégia de diversificação, enquanto os EUA prosseguem envolvidos em conflitos no Médio Oriente.
Citado pela revista Time, Jonathan Sullivan, da Universidade de Nottingham, afirmou que “a China tem gerido melhor a crise energética do que se esperava e observa os EUA enredados nos seus próprios problemas”.









