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Opinião

A armadilha do conforto

Abril 6, 2026 . 15:45
Um rato caiu, acidentalmente, dentro de um recipiente de vidro cheio de arroz. O impacto foi brusco. O susto imediato. Durante alguns segundos, o corpo ficou tenso, os olhos atentos, o instinto em alerta máximo. Procurou uma saída, um perigo, qualquer sinal de que precisava de fugir. Mas não havia nada. Apenas arroz, branco, abundante e silencioso.

O medo começou a dissipar-se. Deu lugar a um alívio quase desconcertante. Não havia predadores, não havia escassez, não havia ameaça. Pelo contrário, havia mais do que suficiente. O rato hesitou, mas provou. E depois comeu.

Comeu com avidez. No dia seguinte com prazer, depois com hábito. A tensão inicial transformou-se em tranquilidade, a tranquilidade evoluiu para conforto. E o conforto, sem que se apercebesse, começou a transformar-se numa sensação enganadora de segurança.

Ali não faltava nada. Não era preciso procurar, nem lutar, nem arriscar. Os dias tornaram-se fáceis. Comia quando queria, dormia sem sobressaltos, acordava sem urgência. E, aos poucos, deixou de olhar para cima. Tudo parecia perfeito.

Até que, numa manhã, já não havia mais nada para comer. E só então se tornou evidente aquilo que sempre esteve lá: o rato não estava num campo aberto, nem num espaço onde pudesse simplesmente escolher partir. Estava dentro de um recipiente aberto — foi por isso que lá caiu — mas com limites que nunca questionou.

Quando ali caiu, o nível do arroz era alto. Tão alto que a saída estava ao alcance. Bastaria um impulso, uma decisão para sair, mas não saiu. Preferiu o prazer imediato. O prazer de viver na abundância — ou pelo menos assim o aparentava.

E, dia após dia, à medida que comia, o nível do arroz ia descendo. Quase impercetivelmente. Um pouco hoje, um pouco amanhã. Sempre com a sensação de que havia suficiente, de que não havia urgência. Sem dar conta, foi descendo com ele.

A cada refeição, afastava-se da saída. A cada dia de conforto, perdia um pouco da margem que lhe permitiria sair. Aquilo que o alimentava era, ao mesmo tempo, aquilo que o afastava da sua própria libertação. Sem perceber, consumia os recursos que lhe permitiam ser livre.
E só quando o fundo ficou vazio é que se apercebeu: tinha-se tornado prisioneiro, vítima da sua própria distração.

Porque o conforto, quando não é questionado, não nos protege. Adormece-nos, retira-nos a atenção aos pequenos sinais de mudança, diminui a inquietação que nos faz avançar. E é precisamente aí que reside o maior risco. Não é na escassez, que nos obriga a agir. É na abundância, quando nos convida a acomodar.

Quantas vezes, na nossa vida, fazemos exatamente o mesmo? Permanecemos em lugares que já não nos fazem crescer, apenas porque ainda nos dão o suficiente para ficar. Relações que já não nos expandem, mas também não doem o suficiente para terminar. Projetos que já não nos desafiam, mas continuam a dar algum retorno. Rotinas que nos tranquilizam e, lentamente, nos afastam de quem poderíamos ser.

Não há alarme, não há rutura. Apenas uma descida silenciosa. E, quando finalmente damos por isso, já não estamos no mesmo ponto de escolha. Já não temos a mesma margem, a mesma energia, nem a mesma proximidade daquilo que, um dia, esteve ao nosso alcance.
Aquilo que hoje nos sustenta pode ser exatamente o que nos está a prender.

E quando finalmente percebemos isso, pode já não haver altura, nem força, nem tempo para sair. Porque a saída não desaparece de repente. Afasta-se, lentamente… enquanto nos distraímos.

Abril 6, 2026 . 15:45

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