
Ultimam-se os preparativos para a Queima e Rebentamento do Judas
Tondela prepara-se para voltar a cumprir a tradição e a reinventá-la em forma de espetáculo. A “Queima e Rebentamento do Judas”, promovida pelo Trigo Limpo Teatro ACERT, sai à rua já este sábado, prometendo um grande momento de teatro, música, movimento e fogo, com uma forte componente cenográfica e uma crítica social ajustada aos tempos atuais.
O processo de criação já começou esta segunda-feira, com a chamada “Fábrica da Queima”, onde tudo ganha forma ao longo de seis dias. Trata-se de um espaço criativo dividido em cinco oficinas — interpretação, movimento, música, figurinos e construção cenográfica — que acolhe participantes inscritos e artistas. Uma semana antes da Páscoa, no Domingo de Ramos, todos se reúnem para conhecer o espetáculo, desde a dramaturgia à composição musical, passando pela cenografia e adereços.

Espetáculo este ano com importância especial
A edição deste ano assume um significado especial. Celebram-se os 50 anos da ACERT e do Trigo Limpo Teatro ACERT, bem como a 30.ª edição da Queima e Rebentamento do Judas enquanto espetáculo artístico de rua. Ao Diário de Viseu, Daniel Nunes, membro da direção da ACERT, sublinha que “celebramos estas duas datas com muito afinco”, destacando o peso simbólico desta edição.
O mote do espetáculo deste ano parte de uma imagem forte: “um buraco no gelo”. A criação artística constrói-se a partir de uma reflexão sobre um mundo emocionalmente congelado, marcado pela “falta de empatia” e pela superficialidade na resolução dos problemas.
Como descreve Daniel Nunes, trata-se de “um mundo que congelou, congelaram as emoções, congelou a empatia”, onde muitas vezes se recorre a soluções rápidas e insuficientes para questões profundas. A ideia dos “buracos” atravessa todo o espetáculo, desde falhas nos orçamentos a marcas de violência, passando pela degradação urbana e até pelos “buracos nas estradas”, transformando-se num elemento central da narrativa.
Depois de os últimos dois anos terem sido marcados pela chuva, que obrigaram a adaptações constantes, a organização mostra-se otimista. As condições meteorológicas têm sido favoráveis e permitem ensaios ao ar livre, com um grupo de participantes altamente motivado. Segundo o membro da associação tondelense, “temos tudo alinhado para fazer uma grande Queima e Rebentamento dos Judas”, destacando o entusiasmo dos jovens envolvidos no processo criativo.
O espetáculo mantém uma forte dimensão participativa, envolvendo cerca de 300 pessoas em cena e aproximadamente 400 no total da produção, incluindo técnicos, músicos e equipas de apoio. Nos últimos anos, o crescimento do número de participantes levou à imposição de limites por razões de segurança e organização, mantendo-se agora uma estrutura estável e consolidada.
Mau tempo dos últimos anos obrigou a uma adaptação dos trabalhos
A mudança de local, introduzida há dois anos, será novamente testada. O recinto da feira semanal de Tondela acolhe o evento, oferecendo mais espaço e melhores condições técnicas. Apesar das limitações impostas pela chuva nas edições anteriores, a expectativa é de que este ano seja possível tirar pleno partido do espaço. A organização acredita que “vai ser a prova dos 9”, sublinhando as melhorias na visibilidade, reforçadas este ano pela introdução de plataformas mais elevadas no cenário.
O momento culminante acontece no sábado, com a queima simbólica do Judas, que este ano assume a forma de um urso polar — uma imagem que reforça a ligação ao tema do gelo e do mundo congelado. A proposta é clara: queimar simbolicamente os “buracos” e os males acumulados ao longo do último ano, num ritual coletivo de libertação.







