
Quando o fogo é aliado: Viseu Dão Lafões queima hoje para evitar tragédias amanhã
A Comunidade Intermunicipal (CIM) Viseu Dão Lafões levou o fogo ao terreno, mas de forma controlada e com um objetivo bem definido. A ação decorreu numa zona isolada de mato junto à Capela de Santa Bárbara, em Ferreira de Aves, no concelho de Sátão, no âmbito do IBERIAN TREX Viseu Dão Lafões 2026, um evento internacional dedicado à prevenção de incêndios florestais.
Até sexta-feira, a região recebe técnicos e especialistas de vários pontos do globo para trocar experiências e boas práticas. Em declarações ao Diário de Viseu, André Mota, responsável da Unidade de Ambiente e Proteção Civil Intermunicipal da CIM, explica que este é “um evento assente na permuta de experiências sobre a utilização do fogo tradicional, entre pessoas que, na sua atividade, têm uma ligação direta ao fogo”.
No terreno, a diversidade é evidente. Sapadores florestais, bombeiros, investigadores e técnicos de diferentes áreas trabalham lado a lado, vindos de nove nacionalidades. “Temos participantes dos Estados Unidos, do Canadá, da África do Sul e de vários países europeus, além de profissionais e voluntários de entidades nacionais”, refere André Mota, sublinhando que esta mistura de realidades enriquece o evento.
Apesar de se falar em fogo, a lógica está longe de ser a da grande área ardida. O foco está na intenção e no controlo. “O importante é a prescrição do fogo, perceber para que serve o fogo que estamos a utilizar”, aponta o responsável. Em Ferreira de Aves, a intervenção incidiu numa mancha contínua de cerca de 500 hectares dominada por giesta, carqueja e urze, vegetação que, num incêndio descontrolado, “arderá toda de uma vez”.
Vida selvagem é “beneficiada”
A ação teve também em conta a vida selvagem. Numa zona com forte atividade de caça, o fogo controlado ajuda a regenerar pastagens e a melhorar as condições de alimentação dos animais. Ao mesmo tempo, a intervenção feita de forma faseada garante abrigo nas áreas não intervencionadas, reduzindo a exposição a predadores naturais.
A escolha do Sátão não foi por acaso. Segundo André Mota, trata-se de um dos concelhos com maior potencial de incêndio na região, juntamente com Aguiar da Beira e Vila Nova de Paiva. São territórios que, antes dos fogos deste ano, “já não ardiam há mais tempo e apresentavam grandes manchas contínuas de mato”, o que aumenta o risco.
O IBERIAN TREX decorre ao longo desta semana, em regime de internato, com várias ações distribuídas pelo território da CIM. Depois de Ferreira de Aves, a próxima paragem está marcada para a Coelheira, em São Pedro do Sul, estando ainda previstas intervenções em Vouzela.

Para a Comunidade Intermunicipal, esta iniciativa é mais um passo na mudança de mentalidades em torno do uso do fogo. A ideia passa por mostrar que este não é apenas sinónimo de perigo, mas também uma ferramenta eficaz de gestão do território, uma abordagem que tem vindo a ser trabalhada através do projeto Life Landscape Fire, com resultados positivos em zonas estratégicas.
“O fogo sempre fez parte da nossa paisagem”, lembra André Mota, recordando práticas antigas de pastores e agricultores. Quando bem aplicado, o fogo controlado é mais económico do que outras formas de gestão de combustíveis e ajuda à regeneração natural das espécies autóctones, assumindo-se como uma realidade que, cada vez mais, ganha espaço no combate aos incêndios florestais.







