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Economia Social: Um Caminho Solidário para um Futuro Sustentável

Novembro 27, 2025 . 07:30
Num mundo marcado por crises e incertezas, surge uma questão essencial, quem deve estar no centro da economia, o capital ou as pessoas?

A economia social afirma-se como uma resposta ética e comunitária, devolvendo às pessoas o protagonismo que lhes pertence. Desde as suas origens, este modelo surge para enfrentar desigualdades e proteger os mais vulneráveis, nascendo na Europa do século XIX como reação às consequências da Revolução Industrial.

Este movimento foi inspirado por correntes socialistas utópicas, como as ideias de Charles Fourier e Robert Owen, que defendiam a cooperação e a organização comunitária como alternativa ao individualismo económico. Paralelamente, a doutrina social-cristã desempenhou um papel determinante, promovendo princípios de solidariedade e justiça social.

A Encíclica Rerum Novarum (1891), do Papa Leão XIII, marcou um ponto de viragem ao afirmar a dignidade do trabalho, a proteção dos mais vulneráveis e a importância da associação entre trabalhadores. Estes princípios deram origem às primeiras associações de socorros mútuos, impulsionaram o movimento cooperativo de Rochdale e inspiraram instituições de caridade, que se tornaram pilares estruturantes da economia social.

Muito antes destas organizações modernas, as Misericórdias já escreviam uma história de cuidado e solidariedade: com origem em Itália há sete séculos e presença em Portugal há mais de cinco, foram das primeiras respostas estruturadas à pobreza e à exclusão. Esta herança secular demonstra que a economia social não é apenas uma criação contemporânea, mas sim um legado vivo de compromisso comunitário e solidariedade.

Mais do que um sistema económico, a economia social é um projeto ético e humano, que procura corrigir “falhas de empatia”, equilibrando eficiência e justiça e colocando as pessoas no centro da atividade económica. Baseia-se numa lógica “bottom-up”, partindo das comunidades para construir soluções ajustadas às suas realidades.

Hoje, assume um papel dinâmico e inovador, sustentando-se em políticas redistributivas e solidárias, promovendo coesão social num contexto de desigualdades crescentes que ameaçam a própria democracia. Além de gerar emprego, as Organizações da Economia Social (OES) contribuem para um modelo económico sustentável e centrado nas pessoas, complementando a atuação do Estado e do setor privado.

Quando estas instituições são fragilizadas, abre-se espaço para práticas que corroem os valores democráticos.

Os princípios orientadores da economia social refletem uma visão humanista: primado das pessoas sobre o capital, gestão democrática, adesão livre e voluntária, autonomia, solidariedade e responsabilidade social. Integrar ética na economia não é utopia, é necessidade. É alinhar desenvolvimento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e devolver às comunidades o poder de construir o seu futuro.

Num mundo de desafios complexos, as OES continuam a ser laboratórios de inovação social, promovendo participação ativa e solidariedade. A economia social reafirma-se, assim, como um caminho essencial para garantir coesão, inclusão e sustentabilidade.
A grande questão permanece. Queremos uma economia ao serviço da sociedade ou uma sociedade ao serviço da economia? A resposta não pode esperar, dela depende o futuro que estamos a construir.

#TodasAsPessoasContam

Novembro 27, 2025 . 07:30

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