O estado do País (2)
Também desde sempre que o Estado se serve a si e aos seus antes de servir os portugueses e após o 25 de Abril a situação, neste contexto, não melhorou, bem pelo contrário. A razão é que os partidos políticos assumiram o Estado por sua conta e passaram a servir-se a si e as máquinas partidárias na mesa das mordomias do Estado.
O partido Socialista foi o grande obreiro da criação e do aproveitamento do modelo eleitoral existente, destinado a controlar os benefícios do Estado, mas os outros partidos não deixaram de aproveitar a mesada e impedem desde sempre a alteração do sistema eleitoral, que é onde reside o centro do poder partidário. Razão dos partidos usaram a tese do regime de Salazar sobre os portugueses não terem a formação e a capacidade necessárias para fazer essa escolha.
Antes do 25 de Abril, o ideal democrático passava pela existência de partidos políticos, o que foi aproveitado pelos partidos nascentes depois do 25 de Abril para controlar o poder político em seu benefício, através de uma lei que lhes permite escolher os deputados e os autarcas, poder que democraticamente deveria pertencer aos cidadãos eleitores, os quais podem escolher apenas o partido da sua preferência. Modelo eleitoral que está na origem do crescente atraso económico e social de Portugal relativamente aos outos países da União Europeia do nosso campeonato, onde a escolha é feita pelos eleitores na mesa de voto, por exemplo, através de círculos uninominais.
A partir daí, o partido político no poder tem na Assembleia da República e nas autarquias cidadãos dependentes da escolha do seu partido, pessoas que não arriscam ter ideias próprias, ou uma prática política diferenciada, porque se arriscariam a não serem reeleitos. O resultado deste modelo é a qualidade dos escolhidos pelos partidos ser cada vez menos qualificada por força de um processo de selecção que vai, pouco a pouco, excluindo os mais competentes e os mais independentes, crescendo o número dos dependentes, económica e socialmente, do partido e da actividade política.
Como os partidos no poder não escolhem só os deputados, mas também os governos e os governos empreguem muitos milhares de dirigentes no Estado, os partidos dão naturalmente emprego aos mais fiéis e aos mais dependentes da actividade política, independentemente da experiência e da competência profissional. De facto, a escolha recai quase sempre nos menos capazes e não nos mais qualificados e com maior sucesso na actividade profissional.
O ex-primeiro ministro António Costa, que desde sempre privilegiou a fidelidade nos seus colaboradores, levou este modelo ao limite o que conduziu a um número absurdo de casos e casinhos e à incompetência do Estado, o que assumiu a dimensão de um verdadeiro desastre nacional, até porque todos os partidos, em maior ou menor grau, sofrem do mesmo mal.
O acidente recente do elevador da Glória, ou da Carris, como a situação semelhante da empresa IP, responsável pelas infraestruturas ferroviárias, como muitos outros casos que o futuro irá desvendando, mostra de forma clara o processo das escolhas ser feito cada vez mais por pessoas com baixas competências e menos sentido da responsabilidade, as quais, por sua vez, escolhem outros ainda menos capazes, num processo em que, pouco a pouco, as essenciais funções de organização e de planeamento perdem poder ou desaparecem de todo.
Não tenhamos ilusões, o mau estado da Saúde, da Justiça, da Educação, direi mesmo da Economia, têm a sua origem na crescente decomposição das tarefas entregues ao Estado e das empresas que vivem na sua órbita.






