Ferrovia: um erro trágico
Já o fiz antes e o ministro nada, mas não custa insistir e pergunto:
1-O senhor ministro afirmou que a rede espanhola é constituída pela alta velocidade em bitola standard (europeia) e a restante rede em bitola ibérica, o que seria a razão para Portugal fazer essa opção pela bitola ibérica. Todavia senhor ministro, não é verdade que as ligações entre a Espanha e a França são todas, passageiros e mercadorias, feitas em bitola europeia? E, assim sendo, como pensa o senhor ministro enviar a maioria das exportações portuguesas para além Pirenéus? Além disso, não é também verdade que os governos de Portugal e da Espanha concordaram na Figueira da Foz que as ligações na nossa fronteira seriam em bitola europeia?
2- Não é igualmente verdade que a Espanha anda há mais de trinta anos a investir no seu sistema ferroviário em bitola europeia e não tendo Portugal feito qualquer investimento, a Espanha colocou de lado o Corredor Atlântico, de ligação a Portugal, preferindo investir no corredor Mediterrâneo entre a fronteira francesa e o porto de Algeciras, passando por Barcelona e Valência? E não é verdade que isso permite secar o nosso porto de Sines sem qualquer ferrovia internacional?
3- Não é também verdade que a Espanha abriu o seu mercado ferroviário à concorrência internacional e que essa decisão concorreu para a descida dos preços? Como pensa o senhor ministro que Portugal possa concorrer com a bitola ibérica? Ou será que pensa que as empresas internacionais investirão em material ferroviário totalmente diferente de toda a restante Europa, para concorrerem em Portugal, um pequeno mercado de dez milhões de consumidores? Ou será que o senhor ministro concorda com um dos seus antecessores, no caso Pedro Nuno Santos, de que com a bitola ibérica se evita toda a concorrência internacional? Ou será o senhor ministro um adepto de Salazar e da sua política de isolacionismo em relação à Europa?
4- O senhor ministro também afirmou que mais tarde se podem mudar as travessas para bitola europeia, ou será que nos pode informar o custo e como é que isso se faz com as linhas em pleno funcionamento? Já avaliou o que aconteceu com a linha do Norte que andou trinta anos a ser modernizada de noite, com um custo de milhares de milhões de euros e no fim da história ganhou dez minutos no percurso? Já leu o senhor ministro o relatório sobre o assunto de um seu longínquo antecessor que nega essa possibilidade?
5- Como a única linha em construção para Madrid é de via única, pode o senhor ministro explicar-me, explicando aos portugueses, com é que essa mudança será feita? Interrompe o senhor ministro, ou um seu sucessor – desgraçado sucessor – o transporte ferroviário para Madrid durante meses? Pode o senhor ministro dizer-nos o que pensam sobre isso os espanhóis?
Senhor ministro, a minha esperança do senhor responder a estas perguntas e, menos ainda, aceitar debater publicamente as suas ideias sobre o assunto, é próxima de zero. A razão é simples: o senhor ministro anda fugido dos portugueses e do debate sobre as suas ideias. Não sei as razões, mas suponho que sabe que não sabe o suficiente sobre o assunto para arriscar que os portugueses conheçam melhor que ministro das Infraestruturas Portugal têm. Acabarão por saber, mas quando for demasiado tarde.






