
O país ainda chora, em Alcafache, os filhos que perdeu há 40 anos
Quarenta anos depois, as lágrimas ainda são de dor e os abraços apertados são a prova de um sofrimento coletivo que marcou a vida de quem sobreviveu. Dos que sobreviveram ao acidente ferroviário mas carregam as marcas que não os deixam esquecer o pior dia das suas vidas.
Mas também dos que perderam os pais, os irmãos, os filhos, os netos, os amigos e vizinhos e se obrigaram a continuar uma vida, a quem o tempo não deu sentido. Alguns deles já não marcaram presença na cerimónia que, ano após ano, não deixa que o país se esqueça daquele dia, e também eles foram lembrados pelo sofrimento que carregaram.
Carlos Ramos tinha 25 anos e viajava no comboio regional. Sobreviveu e quando consegue saltar do comboio esqueceu completamente as dores e as mazelas que tinha no corpo “perante os gritos de sofrimento de quem precisava de ajuda”.
Não escondeu as lágrimas nem a emoção e afirmou que, ao contrário do que se diz, “o tempo não apaga as memórias daquele dia”. Tal como Lilia que na altura tinha quatro anos e perdeu os pais. Quarenta e quatro anos depois, as lágrimas caem em silêncio pensando, quem sabe, como teria sido a vida se aquele acidente não tivesse acontecido.
Aproximamo-nos, e num abraço que ela apertou, revivemos as nossas próprias memórias. Eu tinha 12 anos e lembro nesse dia a alegria da minha avó que ia rever a filha emigrada no Brasil há muitos anos e os netos que não conhecia. E por isso, também nunca esqueci a sua expressão ao saber que o comboio onde eles viajavam tinha descarrilado e havia muitos mortos. Não havia telemóveis, os telefones funcionavam nos postos públicos. Já era tarde quando a notícia chegou: tinham perdido o comboio e viriam no dia seguinte de táxi. Não apagou o impacto do acidente pois ainda hoje não se sabe o número certo das vítimas mortais, mas suavizou a dor naquele coração de mãe e avó.
Reconhecimentos
E por tudo isso a emoção invadiu os presentes na cerimónia e inspirou os discursos de todos os intervenientes.
Referindo-se ao acidente como “uma tragédia que permanece viva na memória coletiva de Mangualde, do país e, sobretudo, de todos aqueles que ali perderam familiares, amigos e vizinhos”, o presidente da Câmara de Mangualde sublinhou que “não há consolo possível para essa perda”.
“Mas há algo maior do que a dor: a memória. A memória que resiste ao tempo e que nos obriga a estar aqui, a continuar a contar, a continuar a cuidar”, sublinhou, reconhecendo a dedicação da Comissão de Trabalhadores dos Acidentados de Alcafache que “ao longo de quatro décadas mantiveram viva esta causa” e que tornaram possível a inauguração da capela ali construída e o novo monumento cedido pelos Comboios de Portugal”.
E foram também as memórias que uma vez mais inspiraram o general António Ramalho Eanes. Era Presidente da República naquela altura e, como o autarca Marco Almeida fez questão de sublinhar, “estava naquele local a acompanhar a população, apenas horas após o acidente”.
Um reconhecimento que António Ramalho Eanes endereçou aos bombeiros, aos elementos que mantiveram viva a memória, destacando Carlos Ramos, a quem chamou filho adotivo, as autoridades locais e a comissão organizadora das homenagens ano após ano. “Uma memória viva, pelos que morreram mas, sobretudo, pelos que perderam entes queridos e pelos que, tendo ficado feridos, passaram por um longo e terrível calvário”, enalteceu
Considerando que “um povo é sobretudo uma história”, sublinhou que por isso mesmo deve aprender com os acontecimentos para evitar que se voltem a repetir.
“E este acidente, como quase todos os acidentes, poderia ter sido evitado se nós portugueses fossemos, não apenas este povo extraordinário, mas juntássemos a isso a capacidade de preocupação, de olhar as coisas, estudá-las e planear para elas respostas de forma a evitar acidentes e incidentes que eram evitáveis”, concluiu Ramalho Eanes.







