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O país ainda chora, em Alcafache, os filhos que perdeu há 40 anos

A inauguração de uma Capela aos Emigrantes foi um dos momentos mais emotivos da cerimónia de homenagem às vítimas do acidente ferroviário, ontem em Alcafache. Uma cerimónia marcada pela dor de quem viveu e não esquece, onde marcou presença o general António Ramalho Eanes, tal como aconteceu há 40 anos

Quarenta anos depois, as lágrimas ainda são de dor e os abraços apertados são a prova de um sofrimento coletivo que marcou a vida de quem sobreviveu. Dos que sobreviveram ao acidente ferroviário mas carregam as marcas que não os deixam esquecer o pior dia das suas vidas.
Mas também dos que perderam os pais, os irmãos, os filhos, os netos, os amigos e vizinhos e se obrigaram a continuar uma vida, a quem o tempo não deu sentido. Alguns deles já não marcaram presença na cerimónia que, ano após ano, não deixa que o país se esqueça daquele dia, e também eles foram lembrados pelo sofrimento que carregaram.
Carlos Ramos tinha 25 anos e viajava no comboio regional. Sobreviveu e quando consegue saltar do comboio esqueceu completamente as dores e as mazelas que tinha no corpo “perante os gritos de sofrimento de quem precisava de ajuda”.
Não escondeu as lágrimas nem a emoção e afirmou que, ao contrário do que se diz, “o tempo não apaga as memórias daquele dia”. Tal como Lilia que na altura tinha quatro anos e perdeu os pais. Quarenta e quatro anos depois, as lágrimas caem em silêncio pensando, quem sabe, como teria sido a vida se aquele acidente não tivesse acontecido.
Aproximamo-nos, e num abraço que ela apertou, revivemos as nossas próprias memórias. Eu tinha 12 anos e lembro nesse dia a alegria da minha avó que ia rever a filha emigrada no Brasil há muitos anos e os netos que não conhecia. E por isso, também nunca esqueci a sua expressão ao saber que o comboio onde eles viajavam tinha descarrilado e havia muitos mortos. Não havia telemóveis, os telefones funcionavam nos postos públicos. Já era tarde quando a notícia chegou: tinham perdido o comboio e viriam no dia seguinte de táxi. Não apagou o impacto do acidente pois ainda hoje não se sabe o número certo das vítimas mortais, mas suavizou a dor naquele coração de mãe e avó.

Reconhecimentos
E por tudo isso a emoção invadiu os presentes na cerimónia e inspirou os discursos de todos os intervenientes.
Referindo-se ao acidente como “uma tragédia que permanece viva na memória coletiva de Mangualde, do país e, sobretudo, de todos aqueles que ali perderam familiares, amigos e vizinhos”, o presidente da Câmara de Mangualde sublinhou que “não há consolo possível para essa perda”.
“Mas há algo maior do que a dor: a memória. A memória que resiste ao tempo e que nos obriga a estar aqui, a continuar a contar, a continuar a cuidar”, sublinhou, reconhecendo a dedicação da Comissão de Trabalhadores dos Acidentados de Alcafache que “ao longo de quatro décadas mantiveram viva esta causa” e que tornaram possível a inauguração da capela ali construída e o novo monumento cedido pelos Comboios de Portugal”.
E foram também as memórias que uma vez mais inspiraram o general António Ramalho Eanes. Era Presidente da República naquela altura e, como o autarca Marco Almeida fez questão de sublinhar, “estava naquele local a acompanhar a população, apenas horas após o acidente”.
Um reconhecimento que António Ramalho Eanes endereçou aos bombeiros, aos elementos que mantiveram viva a memória, destacando Carlos Ramos, a quem chamou filho adotivo, as autoridades locais e a comissão organizadora das homenagens ano após ano. “Uma memória viva, pelos que morreram mas, sobretudo, pelos que perderam entes queridos e pelos que, tendo ficado feridos, passaram por um longo e terrível calvário”, enalteceu
Considerando que “um povo é sobretudo uma história”, sublinhou que por isso mesmo deve aprender com os acontecimentos para evitar que se voltem a repetir.
“E este acidente, como quase todos os acidentes, poderia ter sido evitado se nós portugueses fossemos, não apenas este povo extraordinário, mas juntássemos a isso a capacidade de preocupação, de olhar as coisas, estudá-las e planear para elas respostas de forma a evitar acidentes e incidentes que eram evitáveis”, concluiu Ramalho Eanes.

Setembro 14, 2025 . 20:00

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