
Museu Aristides de Sousa Mendes assinala um ano a “semear” a esperança no mundo
O Museu Aristides de Sousa Mendes faz um ano amanhã. Que balanço faz?
Está muito para além daquilo que eram as minhas melhores expetativas. Há um ano a abertura do museu, que reconhece o ato heroico de Aristides de Sousa Mendes, ficou marcada pela grande qualidade na requalificação arquitetónica da Casa do Passal e, ao mesmo tempo, com um processo museográfico bem preparado que nós tínhamos. O que nós não sabíamos é que o número de pessoas iria exceder completamente as nossas expetativas. Foram mais de 34 mil e até amanhã de certeza que chegaremos aos 35 mil visitantes. E houve meses em que o Museu de Aristides de Sousa Mendes foi o museu do país com o maior número de visitas, o que é um motivo de grande orgulho. Porque uma coisa é nós irmos passear às grande metrópoles e visitamos os museus que lá estão, outra coisa é grande parte destas pessoas virem de fora para virem visitar o museu.
Um outro dado muito interessante é que nós temos à volta de cinco mil alunos que vieram visitar o museu. O que é também um dado muito expressivo porque o facto de termos conseguido, através das escolas, ter aqui à volta de cinco mil alunos é encorajador para o trabalho que queremos continuar a fazer nesta área da educação.
Tirando as escolas que tipo de público visita o museu?
Todo o público. Nós temos pessoas que vêm de vários países, pessoas que vêm de todo o país quase que de propósito para visitar o museu, que se sentem identificadas com o ato de Aristides de Sousa Mendes e querem perceber mais da história. Por aqui há uma segunda variável porque o processo de investigação está muito inacabado e nós temos tido constantemente novidades em relação a descendentes que não tínhamos registos e que aparecem regularmente, alguns descendentes que vêm tentar descobrir no museu informação que lhes possam explicar o percurso dos seus ascendentes. Mas também cidadãos nacionais que vêm apenas para visitar e conhecer o museu. Esta semana, por exemplo, tivemos cá uma turma de professores que vieram dos Estados Unidos e entre eles uma senhora de 87 anos que só descobriu há duas semanas que ela, na altura com dois anos de idade, e os pais foram salvos com um visto do Aristides Sousa Mendes. Há por isso um processo de investigação inacabado.
E quais são as prioridades a partir de agora?
Nós temos três prioridades muito importantes. Uma é a educação, através das escolas e onde eu defini um grande desafio para 2026. Isto é, reunir com o setor da educação, com a DGEST e o Ministério da Educação no sentido de podermos incluir o conhecimento da história do Aristides de Sousa Mendes também retratada nos livros do 9.º ano, quando se fala da 2.ª Guerra Mundial. Mas para além da educação, temos a vertente da investigação e são vários os exemplos em que percebemos que há muito caminho pela frente para descobrir tanta e tanta coisa que aconteceu naqueles dias de junho de 1940. Tentarmos com as universidades portuguesas e estrangeiras trabalhar este processo da investigação e do trabalho contínuo que é preciso fazer. Depois este processo da internacionalização em que temos de continuar a fazer os protocolos de cooperação e amizade, tentarmos levar exposições itinerantes como temos vindo a fazer. Temos já uma para o Parlamento Europeu para este ano, também na cidade de Porto Alegre, onde ele esteve há 100 anos. Vamos levar uma exposição, o filme com a presença de alguns familiares para uma discussão entre instituições sobre a história de Aristides de Sousa Mendes. E depois há um outro processo muito importante para nós e que tem a ver com a capacidade de fazermos um trabalho de internacionalização. O nome do Aristides de Sousa Mendes foi um nome sempre bem visto nos corpos diplomáticos e os sítios por onde passou e deixou sempre boas indicações apesar de ser uma pessoa muito rebelde, determinada, revoltada também com algumas decisões do Estado Novo. Por isso, temos também vindo a trabalhar muito este processo da internacionalização para que grande parte destes locais onde esteve ou outras cidades e países que se identificaram muito com Aristides de Sousa Mendes, possam conhecer melhor a sua história. Por exemplo, Aristides de Sousa Mendes nunca esteve no Luxemburgo mas há uma ligação muito forte porque a família real foi salva e por isso hoje a relação entre Portugal e o Luxemburgo, ou neste caso entre Carregal do Sal e algumas cidades de lá, nomeadamente a Cherazed com quem assinamos um protocolo de cooperação. Mas há muitos outros como o Canadá, algumas cidades dos Estados Unidos, apesar de só ter estado em São Francisco. E há ainda o interesse de muitas televisões e produtoras em lançarem filmes do Aristides de Sousa Mendes, como aconteceu com a produtora do Tom Hanks ou agora a Netflix. Neste primeiro ano termos conseguido chegar a tudo isto, termos alcançado, não só este número de visitas tão significativo com as escolas, mas com o envolvimento das associações culturais do nosso país, com a vinda de pessoas de praticamente todo o mundo foi muito desafiante e gratificante.
Quando fala em investigação é um trabalho que levará a descoberta de novos documentos e outro espólio. O museu tem espaço para crescer?
O museu terá sempre espaço para crescer e terá sempre capacidade de fazer também renovação do seu conteúdo, do seu espólio como fazem a maioria dos museus. Um museu que mantenha o seu cenário museológico constantemente não traz público extra. Há pessoas muito dedicadas a estas causas que virão hoje e regressarão daqui a dois anos ou três se houver peças novas no museu e, portanto, nós temos de ter esta capacidade de ampliar. Há um ano abrimos o museu com o mínimo de todas as peças que tínhamos e entretanto, já foram aparecendo muitas outras peças, nomeadamente o casaco de gala de Aristides que nós estamos a recuperar para colocarmos na sala diplomática onde já temos o seu sabre, as condecorações. Assim como vamos acrescentado espólio, como aconteceu por exemplo com a mala da família real do Luxemburgo que veio depois da inauguração do museu e que foi colocada num lugar muito nobre. Eu já visitei o museu mais de 10 vezes e em todas elas eu encontro algo novo.
O que o museu representou para Cabanas de Viriato, Carregal do Sal e o território?
Nós temos, às vezes, muita resistência em entender que um projeto desta natureza em Carregal do Sal tenha a mesma importância que teria este mesmo projeto numa grande cidade. A verdade é que isto deu nota de que Carregal do Sal, um concelho pequeno da CIM Viseu Dão Lafões, tem capacidade não só de empreender estas obras, como tem capacidade para ser o motor nesta área em termos territoriais. Representou muito desde logo para Cabanas de Viriato que nunca foi tão falada no mundo como agora. Estas 35 mil pessoas que visitaram o museu acabaram por almoçar por cá dando uma grande dinâmica à freguesia. Por arrastamento também Carregal do Sal com as pessoas a aproveitarem para conhecer o concelho, algumas quintas de vinhos, permitindo-nos também trabalhar melhor esta área turística. Este desafio obriga-nos agora a preparar-nos para o futuro o que é em si mesmo, outro grande desafio. E por isso é que dois privados decidiram investir em duas unidades de quatro e cinco estrelas no nosso concelho. Tudo isto tem a ver com este motor que o Museu Aristides de Sousa Mendes trouxe a Cabanas, ao concelho e, claramente, ao território pois não tenhamos nenhuma dúvida que Carregal do Sal e os concelhos à volta, sobretudo, a zona Centro, tem vindo a ter um número muito considerável de visitas. Mas para mim, a grande riqueza que deu este museu foi sentir que ele se reveste de uma grande esperança para o mundo porque nunca como hoje se sentiu o nosso mundo tão marcadamente ligado ao ódio, às guerras, às lutas de poder, aos populismos baratos. Este museu mostra através de uma história real o que é que um homem através de uma caneta e de um carimbo conseguiu fazer para salvar tanta gente. Sejamos também nós portadores desta mensagem de esperança, desta coragem de Aristides para podermos fazer alguma coisa em prol dos outros.







