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Maria do Céu celebra 100 anos rodeada de afeto e muitas memórias

Maria do Céu Pires Machado nasceu a 27 de abril de 1926 e, como não poderia deixar de ser, festejou os seus 100 anos com familiares e amigos da Associação de Solidariedade Social da Freguesia de Abraveses

De bordados e de muitos telefonemas se fez a vida de Maria do Céu Pires Machado, agora com 100 anos de histórias e vivências que insistem em continuar pelas mãos da filha, Elisabete. É bonito ver como há rostos que guardam o tempo sem o denunciar.

À primeira vista, vemos traços suaves e uma expressão serena que coincide com as histórias que se seguiram. Sentada, tranquila, deixa-se estar numa das salas da Associação de Solidariedade Social da Freguesia de Abraveses (ASSFA).

Quem lhe contorna o rosto, com palavras, gestos e lembranças, é a filha, Elisabete. É dela que nos chega a história inteira: contada aos poucos, entre interrupções, cuidados e pequenos episódios do quotidiano. Uma vida reconstruída não pela própria voz, mas por quem a acompanhou de (muito) perto.

Maria Do Céu 100 Anos Abraveses 18
Uma festa de aniversário cheia de muito amor

“Céuzinha”, como é carinhosa tratada pela diretora técnica da ASSFA, nasceu em 1926, numa aldeia do concelho de Trancoso, onde terminou a escola primária. Queria ser professora, mas o seu caminho foi outro.

“Quando ela tinha 17 ou 18 anos, o pai dela, que era filho único e bastante abastado, herdou muitas terras nessa aldeia e acabou por abrir um posto de correios. Na altura, ela pediu ao pai para ir trabalhar para lá”, contou-nos Elisabete, recordando que foi aí que desenvolveu “a sua profissão de telefonista”. Era ela quem levava as cartas, quem chamava os vizinhos, quem fazia chegar notícias.

Num tempo sem pressa, mas também sem alternativas, tornou-se uma figura central na vida da comunidade.Mais tarde, partiu para Lisboa. Foi aí que conheceu o marido.

Depois, já com filhos, seguiu para Angola, onde trabalhou, adivinhe-se, como telefonista numa central dos CTT. Um trabalho exigente, feito por turnos. “Sabia tudo o que se passava”, sorri.

O regresso a Portugal só aconteceria anos depois, onde a vida se reorganizou. Vieram seis netos e, com eles, anos mais tranquilos. O trabalho manual acompanhou-a sempre. Bordados, rendas, costura, uma destreza que não abandonou com a idade. Durante a pandemia, já em casa da filha, voltou a essas rotinas como forma de ocupar o tempo.

“Eu desenhava, ela bordava. Era um projeto das duas”, contou Elisabete. “Às vezes, em dois dias, tinha um saco feito”, adiantou.Na altura, os dias tinham ritmo: exercícios de manhã, com vídeos e pequenas adaptações com garrafas de água no lugar de pesos, e bordados à tarde.

Hoje, aos 100 anos, a memória já não acompanha todas as perguntas. Mas há também gestos que permanecem: o gosto pelo pão, a atenção ao que a rodeia e a tranquilidade de quem está. “Ela sempre foi assim, mais calada, mais observadora”, disse a filha.

Na ASSFA, onde passa os dias desde 2024, Maria do Céu está rodeada por uma rede discreta de cuidado.

“É muito bom termos utentes com estas idades. O nosso lar tem 50 idosos e, neste momento, temos 37 com mais de 90 anos. É um sinal que aqui as pessoas estão a viver um bocadinho melhor”, adiantou a diretora técnica, Margarete Amaral.

No fim, disse-nos que não tem histórias. Talvez porque nunca precisou de as contar. Mas tem um século inteiro e nele cabe uma vida feita de trabalho, decisões e família. Terminou com um bonito sorriso: “obrigada por me vir ver, menina”.

Abril 28, 2026 . 18:45

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