Do distrital até ao campeonato do Mundo
Vão ser 52 equipas de arbitragem no mundial e uma delas é portuguesa, isso devia deixar todo a comunidade do futebol contente.
Mas não! Em Portugal, mesmo nestes momentos, há sempre espaço para o “sim, mas…”. Porque criticamos tudo e, caso da arbitragem, parece que nunca é suficiente.
Durante anos ouvimos dizer que os árbitros portugueses não têm qualidade, que erram demais, que não estão ao nível do futebol que temos. É quase um discurso automático, repetido ao fim de semana, nas bancadas, nos cafés, nas redes sociais.
E depois, de repente, um dos “nossos” é chamado ao maior palco do futebol mundial. E agora? Agora já serve? Os críticos vão continuar a dizer o mesmo a criticar só porque sim.
A verdade é que o percurso de João Pinheiro não começou onde hoje o vemos. Não começou com VAR, nem com estádios cheios, nem com jogos transmitidos para milhões. Começou nos campos distritais, muitos pelados, com poucas condições, aqueles onde quase ninguém quer ir, onde muitas vezes falta tudo… menos opiniões.
Campos onde a equipa de arbitragem chega e sai sozinha. Onde erra, como todos erram, mas onde o erro vale insultos, pressão constante e, em alguns casos, coisas bem piores.
É nesses jogos, longe das câmaras, que se constrói um árbitro. Não é na Liga Portugal, é muito antes disso. É no futebol distrital, onde o amor ao jogo ainda resiste, mas onde o respeito, muitas vezes, já não. E talvez seja isso que mais custa aceitar.
Porque enquanto continuamos a dizer que “isto não presta”, há quem trabalhe, evolua e chegue longe. Muito longe. Ao ponto de representar Portugal num Mundial.
E mesmo assim, continuamos desconfiados. O problema não é a crítica. A crítica faz parte do futebol, faz parte da paixão. O problema é quando ela se torna permanente, quase automática, quase cega. Quando deixa de haver espaço para reconhecer o mérito.
E depois admiramo-nos quando faltam árbitros, quando ninguém quer começar, quando os jovens desistem antes de tentar.
Se calhar, o problema nunca foi só a arbitragem. Se calhar, também é a forma como olhamos para ela.






