Roncopatia: um ruído no silêncio da noite
Esta é hoje reconhecida como um problema que ultrapassa a esfera familiar e social e representa uma questão de saúde, podendo corresponder à fase inicial da Síndrome de Apneia do Sono (SAOS). Estima-se que metade da população adulta ressona, principalmente homens.
Roncopatia e SAOS não são a mesma coisa, mas ambas acontecem enquanto dormimos e porque respiramos. Alguns doentes apenas emitem ruído durante o sono, enquanto na apneia a respiração é interrompida. 90% dos doentes com SAOS ressonam, mas o inverso nem sempre é verdadeiro. A roncopatia é um sinal de alerta para SAOS, mas não é sinónimo.
Qualquer obstrução das vias aéreas superiores contribui para o ruído do ressonar. A causa mais comum é o excesso de peso, sendo que um aumento de 10 kg aumenta em 40% a probabilidade de ressonar. A relação é um ciclo vicioso, pois durante o sono é produzida a hormona que regula o apetite. Um sono de má qualidade diminui a sua produção, aumenta o apetite e consequentemente o peso e o ressonar.
A medição do perímetro cervical faz parte da avaliação de todos os doentes com roncopatia ou SAOS.
A gordura acumulada, especialmente na região do pescoço, causa estreitamento da coluna aérea, dificultando a passagem do ar e aumentando a probabilidade de haver vibração das estruturas faríngeas ou mesmo colapso/obstrução durante a respiração. Uma circunferência cervical superior a 43 cm no homem e 40 cm na mulher é sinal de alarme.
Também o tabaco, o refluxo gastro-esofágico, o consumo de álcool, amígdalas volumosas ou palato estreito, obstrução nasal e toma de medicamentos que relaxam a musculatura, como indutores do sono, contribuem para a roncopatia.
Identificar e corrigir os fatores predisponentes deve fazer parte da avaliação inicial. O diagnóstico implica uma avaliação completa da via aérea superior, eventualmente complementada por exames de imagem e um exame do sono (polissonografia). Em alguns casos, pode ser necessário realizar uma endoscopia da via aérea superior durante o sono induzido por sedação. Diagnóstico feito, é preciso mudar hábitos e seguir as indicações da equipa multidisciplinar, que podem incluir alterações de posição durante o sono ou a utilização de dispositivos orais que avançam a mandíbula e, quando indicado, corrigir cirurgicamente as alterações anatómicas que contribuem para a obstrução.
Nos casos mais graves ou na presença de SAOS moderada a grave, a terapêutica padrão é a utilização de um dispositivo que mantém a via aérea aberta através de uma pressão de ar positiva contínua durante o sono. Ressonar não é normal - normal é dormir em silêncio. Se o ressonar é frequente, procure avaliação médica especializada.





