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A Cidade e as Serras: Um contraste brutal

Abril 21, 2025 . 12:00
Mais de 130 anos depois de Eça de Queirós ter escrito o seu famoso romance “A Cidade e as Serras”, Portugal está de novo confrontado com um brutal contraste entre o muito que o Poder político oferece às “Cidades”, ou seja ao Litoral Urbano, e o pouco que proporciona às “Serras”, ou seja ao Interior Rural.

Em plena campanha eleitoral para a Assembleia da República, e num País que até tem um Ministro da Coesão Territorial, é importante confrontar os políticos com os contrastes brutais na forma como se utilizam os dinheiros públicos.

Vejamos dois exemplos da preocupante “chuva de biliões” de investimentos públicos concedidos ao Litoral Urbano:

1 – A Linha ferroviária de Alta Velocidade Lisboa/Porto
Já foi lançado o concurso para o primeiro troço entre Porto e Oiã, onde serão investidos perto de 2.000 milhões de euros, em bitola ibérica, mas não é ainda claro qual vai ser o traçado a sul de Leiria, até Lisboa.
É um enorme risco financeiro fazer-se uma adjudicação deste montante sem estarem esclarecidos aspetos fundamentais para a necessária conclusão da nova ligação ferroviária Lisboa/Porto.

2 – O Novo Aeroporto de Lisboa
O novo aeroporto de Lisboa está a ser estudado desde o Governo de Marcelo Caetano, pelo que a decisão de se reforçarem as infraestruturas aeroportuárias da Grande Lisboa parece óbvia. Mas a localização deste novo aeroporto, em Alcochete, implica novos acessos, nomeadamente ferroviários, o que exigirá uma nova ponte sobre o Tejo.

Dado que a nova Linha de Alta Velocidade Porto / Lisboa não irá atravessar o Tejo para Sul, terá de haver uma nova linha ferroviária para o futuro aeroporto de Alcochete .

Essa nova travessia do Tejo será parte da nova ligação ferroviária em Alta Velocidade para Madrid, com uma eventual bifurcação para o Algarve ? Ora parece inconcebível fazer uma nova linha Lisboa/Madrid em bitola ibérica.

Duas outras perguntas que qualquer contribuinte poderá colocar:
- A nova linha para o futuro aeroporto, que seguirá depois para Madrid, vai ser de bitola europeia?
- E, ao mesmo tempo, a nova linha para o Porto será em bitola ibérica?

Note-se que estamos a falar de investimentos de muitos milhares de milhões de euros, cujo retorno financeiro, com todas estas dúvidas, parece muito discutível.

Os eleitores-contribuintes, lembrados dos dolorosos custos provocados pela Troika, depois da pré-bancarrota de 2011, estão muito preocupados.

Entretidas com estes “negócios de biliões” no Litoral Urbano, as principais forças políticas não parecem ter interesse em investir no Interior Rural, mesmo em setores que são prioridades óbvias para a Coesão Territorial e a Competitividade Económica do nosso País.

Vejamos um exemplo chocante: Os trágicos incêndios rurais de 2017 impressionaram todo o País, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, decidiu celebrar o Dia de Portugal de 2024 nos concelhos mártires de Pedrogão, Figueiró e Castanheira de Pera . Mas, entretanto, nada de concreto se fez no terreno.

Por exemplo, os Parques de Biomassa, indispensáveis para que os proprietários do minifúndio do Interior Rural aí poderem colocar os seus excedentes de biomassa e assim serem compensados pelos respetivos custos de recolha e transporte, continuam esquecidos !...

Por agora, no terreno, as autoridades apenas andam à “procura das coimas “ para massacrarem ainda mais os proprietários rurais do minifúndio, sem qualquer preocupação de enquadramento estratégico para os “sumidouros de carbono”.

Ou seja, para o Litoral Urbano não faltam largos milhares de milhões de euros!...
Mas para o Interior Rural, já não há uns poucos milhares de euros!...

Apresentar uma estratégia inteligente de investimentos públicos que promovam a Coesão Territorial, tem de ser uma prioridade nesta Campanha Eleitoral. Assim o exige uma Democracia de Qualidade.

(*) Subscritor do Manifesto
“Por Uma Democracia de Qualidade”

Abril 21, 2025 . 12:00

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