
Marcelo quer reafirmação de património europeu
O ex-Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa defendeu hoje que, “perante demasiados casos de ausência de valores”, é preciso “reafirmar com veemência, o património espiritual europeu”, nomeadamente de liberdade, democracia e dignidade das pessoas.
Marcelo Rebelo de Sousa frisou também que nada, nem "ninguém é eterno” e que nem “os impérios são eternos ou detentores da verdade absoluta”.
“Perante esta análise que abrange quase uma década, perante demasiados casos de inversão de valores, ou melhor, de total ausência de valores, o caminho a percorrer por cada um que acredita nesses valores e luta por eles é reafirmar com veemência o património espiritual europeu”, defendeu o professor, o primeiro português a receber do rei de Espanha, esta tarde, o prémio Fórum La Toja – Josep Piqué, na ilha de La Toja, província de Pontevedra, Galiza, Espanha.
Nesse património, Marcelo Rebelo de Sousa disse que “se destacam a dignidade da pessoa, a liberdade, o Estado de direito democrático, a economia social de mercado, a justiça, a solidariedade e a felicidade das pessoas”.
“É o mesmo que dizer que, para respeitar a dignidade das pessoas, é preciso aceitá-las tal como são, na diferença. Ter compaixão, que não é comiseração, mas sim uma paixão partilhada com elas. E colocar, acima de tudo, a concretização do bem comum para elas e com elas”, observou.
O ex-chefe de Estado considerou estar em causa o que fez do continente europeu “único no mundo” e que “continua a suscitar o respeito e a atenção de tantos em todos os continentes”.
Impõe-se, assim, “reafirmar sempre estes valores, mais através de ações do que de palavras”.
Marcelo Rebelo de Sousa disse que é isso que, “enquanto cidadão, professor e educador”, pretende “continuar a fazer todos os dias, cada dia como se fosse o primeiro”.
“Este prémio representa uma inspiração, um incentivo e uma obrigação moral de nunca, mas nunca, desistir deste caminho”, vincou.
Marcelo Rebelo de Sousa, que há seis anos esteve em La Toja, apelou então “à causa da liberdade, da reconstrução democrática, da afirmação do interesse coletivo, da missão de Espanha e de Portugal”, bem como “na reconstrução da esperança num futuro diferente daquele que parecia estar a surgir”.
“Ao longo destes anos, a evolução do mundo tem sido muito mais complexa e grave do que teria imaginado”, reconheceu.
Assim, “o multilateralismo está praticamente morto ou em hibernação” e as organizações internacionais “foram, em grande medida, esvaziadas”.
“A força impôs-se ainda mais ao direito. O direito internacional e os direitos humanos passaram a ser ignorados pelos mais poderosos entre os poderosos”, lamentou.
Para além disso, “o unilateralismo e o bilateralismo tornaram-se prática corrente, sem os sucessos esperados”.
“A maior potência mundial enfraqueceu, em mais de uma ocasião, a aliança histórica com a Europa e com a NATO. As democracias têm enfrentado enormes dificuldades no que diz respeito à sua reforma e renovação. As forças e as ideias antissistema cresceram rapidamente, as ditaduras aumentaram e as democracias diminuíram”, criticou.
Também a Inteligência Artificial surgiu como um “instrumento de progresso extremamente relevante”, mas também “de luta pelo seu controlo por parte de poderes políticos e económicos que parecem querer dominar o mundo, sem regras universais e através da negociação entre uma minoria de atores alheios ou contrários à liberdade, ao pluralismo e à democracia”.
“Tudo isto e muito mais criou situações de ausência de direito, limitando e atrasando um diálogo mais eficaz sobre temas universais como o clima, os oceanos, as migrações e, sobretudo, a guerra, a paz e a dignidade das pessoas concretas”, censurou.








