Árbitros jovens: tiram o curso. E agora…?
É um passo corajoso. Enquanto muitos escolhem jogar ou apoiar uma equipa, ele escolhe assumir decisões que todos vão ver e nem todos vão aceitar.
Depois chega o primeiro jogo. O apito pesa mais do que parecia nas aulas. Há jogadores que lhe pedem explicações, treinadores que protestam e vozes vindas da bancada. No fim, talvez regresse a casa a pensar menos nas decisões que acertou e mais naquela em que pode ter errado.
É aqui que devemos fazer uma pergunta: o que acontece a estes jovens depois de terminarem o curso? Ensinar as leis do jogo é indispensável, mas não chega. Um árbitro aprende também com o que vive em campo, com as dúvidas que leva para casa e com a conversa que encontra depois de um jogo difícil.
Precisa de alguém que o ajude a perceber o que correu bem, o que pode melhorar e por que razão vale a pena voltar no fim de semana seguinte, e aqui há um papel dos concelhos de arbitragem distritais. O acompanhamento é fundamental. Quem já passou pela arbitragem sabe como um gesto pode fazer diferença. Um telefonema depois de uma estreia complicada.
Uma palavra de incentivo de um colega mais experiente. Um dirigente que o recebe com respeito. Um treinador que discorda de uma decisão, mas se lembra da idade de quem tem o apito na mão. Nenhum desses gestos altera o resultado de um jogo. Pode, porém, mudar o percurso de uma pessoa.
Também precisamos de ser honestos quanto à exigência que colocamos sobre quem está a começar. Queremos que os jovens árbitros tenham segurança, personalidade e capacidade para decidir sob pressão. Essas qualidades constroem-se com tempo e experiência. Se exigirmos a um estreante a serenidade de quem arbitra há vinte anos, estaremos a pedir-lhe algo que ninguém poderia oferecer na sua primeira profissão ou no seu primeiro jogo.
O futebol de formação tem aqui uma responsabilidade especial. Falamos muitas vezes da importância de dar tempo aos jovens jogadores para aprenderem. Aceitamos que falhem um passe, que se precipitem perante a baliza ou que tenham um dia menos conseguido. O jovem que arbitra o mesmo jogo está também a aprender. Merece a mesma compreensão.
Isto não significa que as suas decisões fiquem acima da análise. Pelo contrário: um bom acompanhamento ajuda-o a reconhecer erros e a evoluir. Há, contudo, uma diferença enorme entre corrigir um jovem e humilhá-lo. Entre explicar uma decisão discutível e transformar cada apito num motivo para insultos. Os adultos presentes num jogo escolhem, pelo seu comportamento, que exemplo querem dar.
Dentro de dias, o 25.º Encontro Nacional de Árbitros Jovens reunirá participantes de diferentes pontos do país. Será uma oportunidade para partilharem experiências e sentirem que pertencem a uma comunidade. Mas a atenção que lhes damos durante um encontro deve continuar ao longo da época, nos campos onde arbitram e nos momentos em que mais precisam de apoio.
Se queremos atrair novos árbitros, temos de olhar para o que acontece depois da inscrição. E, se queremos que fiquem, temos de olhar para o que acontece depois do primeiro erro, da primeira crítica injusta, do primeiro jogo em que pensam desistir.
A pergunta do título não se responde com a entrega de um certificado. Responde-se com formação contínua, acompanhamento próximo e respeito em cada campo. Sobretudo, responde-se fazendo com que nenhum jovem sinta que, depois de ter tido coragem para começar, ficou sozinho.





