Professores ontem, polícias amanhã
Entre as afirmações que mais me chamaram a atenção está uma comparação simples, mas preocupante: Lisboa teria cerca de oito mil polícias em 2010 e hoje terá menos de seis mil, tendo simultaneamente aumentado a população.
O problema faz-me recordar outro que Portugal conhece demasiado bem: a falta de professores. Durante anos, fomos assistindo ao envelhecimento da classe docente, às aposentações e à dificuldade de atrair jovens para uma profissão indispensável. Só quando a escassez se tornou evidente começou a ganhar força uma política de valorização, formação e atração. Hoje existem sinais encorajadores de maior procura por formações ligadas à docência.
Porque não aplicar parte dessa aprendizagem às forças de segurança? Não se trata simplesmente de abrir mais concursos para a PSP ou para a GNR. Trata-se de tornar estas carreiras suficientemente atrativas para que um jovem as escolha, nelas permaneça e consiga construir uma vida digna.
Portugal tinha, no final de 2025, cerca de 11,4 milhões de residentes, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Um país com esta dimensão deveria conseguir projetar, com vários anos de antecedência, quantos profissionais de segurança necessita. Defendo, por isso, a criação de um Plano Nacional de Efetivos de Segurança a dez anos, revisto anualmente e sustentado em critérios transparentes.
A distribuição não deveria depender exclusivamente da população residente. Um modelo racional teria de ponderar população, densidade, extensão territorial, população flutuante, turismo, movimentos pendulares, criminalidade registada, grandes eventos, infraestruturas críticas e características específicas de cada território. Lisboa não tem apenas os seus residentes: recebe diariamente trabalhadores, visitantes e turistas.
Também a remuneração deveria reconhecer diferentes graus de exigência. Um suplemento associado ao risco efetivo, ao trabalho noturno, a determinadas missões operacionais ou a zonas de especial pressão pode ser uma ferramenta legítima de valorização. E, tal como se procura fixar professores onde é mais difícil recrutá-los, faria sentido estudar mecanismos de fixação territorial para polícias colocados em áreas onde a habitação absorve uma parcela desproporcionada do rendimento.
Há ainda uma questão transitória que merece reflexão: enquanto os efetivos não forem suficientes, poderão outras estruturas do Estado libertar capacidade policial? As Forças Armadas não devem transformar-se numa polícia de substituição.
As missões são diferentes e essa separação é essencial num Estado de direito democrático. Mas, dentro dos limites constitucionais e legais, pode estudar-se cooperação temporária em logística, proteção de determinadas infraestruturas, comunicações, cibersegurança, apoio em emergências e outras tarefas adequadas às suas competências, permitindo que mais polícias sejam canalizados para patrulhamento, proximidade e investigação.
Aliás, o próprio Ministério da Administração Interna reconheceu em 2026 o desafio do recrutamento e retenção e anunciou a intenção de negociar medidas para reforçar a atratividade das carreiras. Foi também referido que cerca de 900 agentes da PSP passariam à pré-aposentação durante o ano, em paralelo com a entrada prevista de mais de mil novos elementos. É precisamente por isso que o debate deve ultrapassar a resposta ao próximo concurso.
A segurança não deve ser transformada numa disputa partidária nem numa competição de perceções. É legítimo discutir se determinados indicadores de criminalidade aumentam ou diminuem; é igualmente legítimo que os cidadãos expressem insegurança. Mas existe uma pergunta anterior e mensurável: temos os profissionais necessários, nos locais certos e em número adequado à realidade demográfica e territorial do país?





