A Europa entre a força e o direito
A guerra regressou à Europa, as relações transatlânticas atravessam uma transformação profunda, as democracias liberais enfrentam novas pressões e o direito internacional parece perder terreno perante uma política de poder cada vez mais evidente.
Foi sobre este mundo em mudança que Nicole Gnesotto, reconhecida especialista francesa em questões europeias e geopolíticas, nos desafiou a refletir, no âmbito da conferência Beira Verão, numa intervenção intitulada “O Ocidente, a guerra e a paz”.
Uma das ideias mais interessantes da conferência foi a leitura da história do Ocidente como um percurso, naturalmente imperfeito e contraditório, de progressiva afirmação do direito sobre a força. O Ocidente fez a guerra, procurou regulá-la e construiu mecanismos destinados a preservar a paz. Depois das duas guerras mundiais, esse percurso conduziu à criação das Nações Unidas e de uma ordem internacional baseada em regras, enquanto a integração europeia procurava tornar impensável uma nova guerra entre europeus.
Durante décadas, a Europa desenvolveu-se apoiada em três pressupostos fundamentais: afastar a guerra do continente, promover o comércio como instrumento de prosperidade e pacificação e confiar grande parte da sua segurança à aliança com os Estados Unidos. Esse modelo proporcionou um período extraordinário de paz, crescimento e integração.
Hoje, porém, os europeus são confrontados com uma realidade diferente. Têm de reforçar a sua capacidade de defesa, perceber que as relações económicas são também instrumentos de poder e admitir que a proteção americana pode já não representar a certeza estratégica que durante décadas sustentou a segurança europeia. É uma mudança profunda para uma Europa que foi construída precisamente para pensar menos na guerra e mais na cooperação.
Mas preparar a Europa para um mundo mais perigoso não pode significar, aceitar a guerra como inevitável.
A segurança exige investimento na defesa e maior autonomia estratégica europeia. Exige capacidade tecnológica, energética e industrial, proteção das infraestruturas críticas e redução de dependências externas. Mas uma Europa forte não pode ser apenas uma Europa mais armada. Tem de continuar a ser uma Europa assente no Estado de direito, na liberdade, na democracia e na coesão social.
Este é talvez o ponto que mais merece reflexão. As ameaças às democracias europeias não vêm apenas do exterior. Crescem também no seu interior, alimentadas pela desconfiança nas instituições, pelo sentimento de abandono de segmentos das classes médias, pelo aumento das desigualdades e pela perceção de que os benefícios da globalização não foram distribuídos de forma equilibrada.
A própria conferência chamou a atenção para a necessidade de compreender as razões que levam uma parte dos cidadãos a procurar respostas políticas fora da ordem liberal tradicional.
Defender a democracia implica, por isso, muito mais do que proteger fronteiras. Significa garantir que as instituições funcionam, que existem oportunidades, que o crescimento económico é acompanhado por coesão social e que os cidadãos continuam a reconhecer na democracia capacidade para responder aos seus problemas.
A Europa encontra-se, assim, perante uma escolha decisiva. Num mundo onde regressam a força, a intimidação e as ambições imperiais, precisa de adquirir capacidade para se defender sem abdicar daquilo que pretende defender.
Talvez seja essa a grande questão deixada pela reflexão de Nicole Gnesotto: como preservar o primado do direito num mundo novamente seduzido pela força?
A resposta determinará muito mais do que a segurança europeia. Determinará que Europa queremos deixar às próximas gerações.





