Quando dizem às mulheres: “Já é tempo de ir para casa”
Nessa senda, este verão brindou-nos com o filme Meu Nome é Agneta, um filme que, através de uma história aparentemente simples, leva-nos a refletir sobre o papel das mulheres e sobre a forma como, tantas vezes, a sua identidade é construída em função dos outros. Agneta representa muitas mulheres que passaram grande parte da vida a cumprir os papéis que lhes foram atribuídos, como esposas, mães, trabalhadoras e cuidadoras e que, a certa altura, se confrontam com uma questão essencial: quem são elas para além de tudo aquilo que fizeram pelos outros? Dedicaram uma vida inteira a cuidar dos outros, tantas vezes, sem que lhes fosse reconhecido o direito de cuidar também de si próprias.
A invisibilidade das mulheres não acontece apenas dentro de casa. Ela prolonga-se para os locais de trabalho, para as instituições e, sobretudo, para a vida pública e política. E torna-se ainda mais evidente quando essas mulheres envelhecem.
Quando uma mulher ocupa um cargo de responsabilidade durante muitos anos, raramente se discute apenas o seu desempenho. Discute-se a sua idade, a sua disponibilidade e até aquilo que deveria estar a fazer com o seu tempo. E, de uma forma disfarçada e subtil surge o conselho: que “já está há tempo demais”, que “é preciso dar lugar aos mais novos” ou que “já devia estar a tomar conta dos netos”, ou “agora é o tempo de cuidar da família”.
É difícil imaginar que a mesma exigência seja feita, com igual frequência e naturalidade, a um homem da mesma idade. Nos homens, os anos acumulam autoridade. Um homem com décadas de vida política é experiente, conhecedor dos dossiers, uma referência. Nas mulheres, os anos parecem acumular uma espécie de prazo de validade. Uma mulher da mesma idade pode ser rapidamente considerada ultrapassada, excessiva ou dispensável. Ele continua disponível para liderar; ela é convidada a regressar ao espaço privado.
Não se trata de negar a importância da família, dos filhos ou dos netos. Cuidar é uma escolha legítima e valiosa. O problema começa quando essa escolha deixa de pertencer à mulher e passa a ser uma obrigação social. Quando se entende que, depois de determinada idade, o seu lugar natural já não é uma assembleia, uma autarquia, um parlamento, uma instituição, ou qualquer outro espaço de decisão, mas a casa.
Agneta lembra-nos precisamente isso: nunca deveria existir uma idade para deixarmos de ser protagonistas da nossa própria história. As mulheres não existem apenas enquanto mães, avós, esposas ou cuidadoras. Podem sê-lo e, podem, ao mesmo tempo, ser líderes, decisoras, profissionais, políticas e cidadãs ativas.
Talvez esteja na hora de deixarmos de perguntar às mulheres quando vão sair de cena. A pergunta verdadeiramente necessária é outra: Quem decidiu que uma mulher tem prazo de validade na vida pública?






