Um país com mais pessoas, mas cada vez mais desigual
Somos também um país mais diverso, onde a população estrangeira representa já cerca de 14% dos residentes. Mas somos, simultaneamente, um país envelhecido e marcado por profundas assimetrias territoriais.
É este o retrato que emerge dos dados recentemente divulgados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e pela Pordata. Um retrato que merece reflexão, sobretudo em regiões do interior como Viseu.
O crescimento populacional dos últimos anos poderia sugerir que Portugal conseguiu inverter o seu problema demográfico. A realidade é bastante mais complexa. O aumento da população deve-se essencialmente à imigração, enquanto o saldo natural permanece negativo e a natalidade continua insuficiente para assegurar a renovação das gerações.
Portugal mudou também na sua composição. A comunidade brasileira assume particular expressão, mas vivem hoje no nosso país cidadãos provenientes de geografias muito diversas: dos países africanos de língua portuguesa a outros países europeus, passando por uma presença crescente de populações oriundas da Ásia, nomeadamente da Índia e do Nepal.
Esta diversidade representa uma profunda transformação social. A imigração tornou-se importante para compensar a redução da população em idade ativa, responder às necessidades do mercado de trabalho e assegurar a sustentabilidade de muitas atividades económicas.
Mas acolher não basta. É necessário integrar, garantindo condições de habitação, educação, saúde, aprendizagem da língua e participação plena na comunidade.
Ao mesmo tempo, estamos mais velhos. O peso crescente da população idosa terá consequências profundas na saúde, na segurança social, nas respostas sociais, no mercado de trabalho e na própria organização das cidades e dos territórios.
E talvez seja aqui que encontramos o maior desafio: Portugal não envelhece nem cresce da mesma forma em toda a sua geografia.
Enquanto as áreas metropolitanas e algumas regiões do litoral concentram população, emprego e investimento, muitos territórios do interior continuam confrontados com o envelhecimento, baixa natalidade e dificuldade em fixar jovens.
Esta é uma das grandes desigualdades estruturais do país: as pessoas e as oportunidades permanecem excessivamente concentradas no território. Para Viseu, esta realidade deve ser encarada simultaneamente como um desafio e como uma oportunidade.
Temos qualidade de vida, segurança, ensino superior, serviços de saúde, empresas competitivas e uma localização privilegiada na região Centro.
Mas ter boas condições para viver já não é suficiente. É necessário criar condições para ficar. Isso significa habitação acessível, incentivos fiscais e de investimento para empresas, emprego qualificado, melhores salários, boas acessibilidades, reforço das redes de transporte intermunicipal, respostas de saúde e educação e uma economia capaz de oferecer oportunidades aos jovens.
Significa também saber acolher e integrar novos residentes, incluindo população estrangeira, fazendo da diversidade um fator de revitalização económica e social.
O ensino superior assume aqui uma importância estratégica. As instituições de ensino superior de Viseu podem desempenhar um papel decisivo na atração de jovens nacionais e internacionais, na qualificação da população, na ligação às empresas e na fixação de talento. Cada estudante que escolhe Viseu representa uma oportunidade de estabelecer uma relação duradoura com o território.
Precisamos, por isso, de uma verdadeira política de coesão demográfica. Não basta falar de coesão territorial através de fundos e infraestruturas. As políticas públicas devem ser também avaliadas pela sua capacidade de atrair pessoas, fixar famílias, criar emprego e assegurar serviços públicos de qualidade em todo o país. Os números da população dizem-nos muito mais do que quantos somos. Dizem-nos que país estamos a construir.
Portugal nunca teve tantos habitantes e nunca foi tão diverso. O grande desafio das próximas décadas será, por isso, não apenas aumentar a população, mas distribuí-la de forma mais equilibrada pelo território e criar condições para que as pessoas possam escolher viver, trabalhar e construir o seu futuro também no interior.
Viseu tem condições para fazer parte dessa resposta. O desafio é transformar essas condições numa estratégia capaz de atrair pessoas, fixar talento e criar futuro.






