
Ambientalistas contra retomar da opção nuclear no mundo
Organizações ambientalistas portuguesas rejeitam o nuclear como recurso energético no mundo, mesmo centrais de nova geração, dizem que é menos eficiente que as energias renováveis, e apontam os custos como um dos principais entraves.
A propósito de um retomar de investimento na energia nuclear no mundo, a Lusa questionou as organizações ambientalistas Geota (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente), Quercus e Zero, com todas a coincidirem na ideia de que a aposta deve ser nas renováveis e a condenarem o nuclear como solução para a falta de energia.
A mesma posição é também defendida por organizações ambientais da Europa, como a “European Environmental Bureau” (EEB) ou a “Climate Action Network Europe” (CAN Europe), que juntam organizações de ambiente de dezenas de países europeus. Para todos, nacionais e internacionais, a prioridade deve ser a eficiência energética, as energias renováveis e o armazenamento.
A Quercus é perentória a afirmar que a energia nuclear não poder ser apresentada como melhor solução para os problemas energéticos mundiais “desde logo pelos grandes impactos ambientais”.
Segundo a associação, é preciso considerar todo o ciclo de vida de uma central, da mineração e enriquecimento do urânio à construção, à produção, e depois aos resíduos e ao desmantelamento. Tudo junto, as emissões de dióxido carbono “são muito superiores às associadas às tecnologias renováveis de produção elétrica”.
Recordando que além de produzirem resíduos perigosos as centrais nucleares também consomem muita água, a Quercus salienta que as secas podem impedir a refrigeração devido aos baixos caudais dos rios, como aconteceu recentemente na Hungria, com a paragem da central de Paks por falta de água no rio Danúbio.
O Geota aponta os custos elevados como uma das razões para dizer “não” ao nuclear. “São muito superiores aos da eólica e solar, mesmo quando estas são combinadas com armazenamento”, diz Miguel Macias Sequeira, vice-presidente da organização.
A resposta para a falta de energia passa, diz, por uma combinação de redução da procura, eficiência energética, eletrificação, energias renováveis, armazenamento, redes e outras soluções adequadas ao contexto de cada país. A energia nuclear “surge muito abaixo na lista de prioridades”.
A associação também questiona o “renascimento nuclear”, porque se há notícias de mais 15 reatores este ano, correspondentes a 12 GW (gigawatts) também as há de mais 800 GW de capacidade instalada de renováveis em 2025.
Opinião idêntica à da associação Zero, que considera a “renascença nuclear” uma “narrativa”, com novos reatores sim mas outros que deixaram de operar ou que estão em fase final de funcionamento.
A Zero destaca também dados que indicam que a eólica 'onshore' e o solar fotovoltaico são as fontes mais baratas de produção de energia, com a nuclear a ser mais cara, além de as centrais demorarem 10 a 20 anos a serem construídas.
E aponta também o “paradoxo” de um setor (nuclear) a ser apresentado como solução para a crise climática estar a ser condicionado por ela, com centrais pela Europa a reduzirem ou suspenderem produção devido a secas e a água de rios demasiado quente para arrefecer os reatores.
O presidente da Zero, Francisco Ferreira, lembra que os compromissos de descarbonização assumidos para 2030 e 2050 exigem reduzir emissões rapidamente e isso não acontece com o nuclear, pelos prazos de construção e licenciamento, concluindo que “investir tempo e capital num reator que só estará pronto daqui a quinze ou vinte anos atrasa, não acelera, a descarbonização”.
O Geota dá a mesma resposta por outras palavras: “Uma central que pode demorar mais de 15 ou 20 anos entre decisão, licenciamento, financiamento, construção e entrada em funcionamento chega demasiado tarde para responder às metas mais urgentes”, pelo que “cada euro e cada ano consumidos na preparação de uma opção nuclear são recursos que deixam de ser aplicados em soluções que reduzem emissões imediatamente”.
A Quercus acrescenta que “o argumento de que as renováveis necessitam da nuclear para compensar a sua variabilidade ignora uma característica fundamental das centrais nucleares: a sua reduzida flexibilidade operacional”.








