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O Vídeo que Dura um Minuto e a Ansiedade que Fica

Agosto 26, 2026 . 11:00
Todos os dias, milhões de adolescentes percorrem o fluxo infinito de vídeos curtos no TikTok e entre danças e desafios, surgem publicações sobre saúde mental: jovens que, em tom de confidência, listam "sintomas de ansiedade", "sinais de trauma" ou indicadores de neurodivergência.

O vídeo é curto, e o algoritmo rapidamente passa a sugerir mais conteúdos do mesmo género. Assim, sem qualquer intervenção profissional, contexto ou critério de qualidade, uma geração inteira constrói a sua opinião sobre a saúde mental a partir de fragmentos criados por pessoas que, na maioria dos casos, não têm formação na área.

Há um mérito inegável nas redes sociais: popularizaram a conversa sobre saúde mental, pois até há poucos anos, falar de ansiedade, depressão ou ideação suicida era, para muitos jovens, um ato solitário. O estigma era pesado, a informação escassa, e o sofrimento vivia-se no silêncio. A geração das redes sociais mudou isso, criando comunidades onde o sofrimento é partilhado e onde palavras como "ansiedade", "depressão" e "trauma" deixaram de ser tabu.

Para um/a jovem que nunca ouviu falar de ataques de pânico e que um dia os experiencia, encontrar um vídeo onde alguém descreve exatamente o que está a sentir pode ser um alívio imenso, pois pode ser a primeira vez que se sente visto e que percebe que não está sozinho. Além disso, as plataformas permitiram que vozes que antes não tinham espaço — pessoas com vivências reais de doença mental, minorias, jovens de contextos desfavorecidos — pudessem partilhar as suas experiências.

O problema não está na existência destes conteúdos, mas no facto de coexistirem, na mesma plataforma, com um volume massivo de desinformação, sem mecanismos eficazes de filtragem, e de os jovens não terem ferramentas de literacia que lhes permitam distinguir o que é rigoroso do que é perigoso.

Um dos fenómenos mais preocupantes é a propagação de conteúdos que incentivam o autodiagnóstico de perturbações mentais complexas.

Em poucos segundos, um criador pode listar "sinais de Hiperatividade e Deficit de atenção", "comportamentos que indicam autismo" ou "frases que revelam trauma complexo". O que está em causa não é apenas a superficialidade com que condições clínicas complexas são tratadas, mas o facto de que muitos destes "sintomas" são comportamentos humanos perfeitamente normais, retirados do seu contexto e apresentados como indicadores de patologia.

A consequência é que muitos jovens passam a interpretar experiências comuns como patológicas, num fenómeno que alguns especialistas designam por "medicalização da experiência humana normal". Em vez de aprenderem a lidar com o desconforto como parte da vida, passam a vê-lo como um sintoma que precisa de ser diagnosticado e tratado.

Um dos problemas estruturais das redes sociais é a ausência de responsabilização pelos conteúdos de saúde mental disseminados, pois qualquer pessoa pode afirmar-se "especialista" sem qualquer credencial. As plataformas não exigem formação, não verificam a veracidade das afirmações, e o algoritmo privilegia o conteúdo que gera mais interação — e o sensacionalismo gera mais interação do que a informação rigorosa.

Este modelo de negócio, baseado na captura da atenção, é incompatível com a promoção de uma relação saudável com a informação. Quanto mais tempo cada jovem passa a consumir conteúdos sobre ansiedade, mais as plataformas lhe mostram esses conteúdos, num ciclo que pode agravar a própria ansiedade.

É inegável que muitos jovens encontram nas plataformas digitais um sentimento de pertença que não encontram no mundo offline. Para adolescentes que se sentem isolados, uma comunidade online pode ser um porto seguro, mas estas têm limites: a relação é, na maioria dos casos, assimétrica e superficial, pois um criador com centenas de milhares de seguidores não pode oferecer o apoio individualizado e responsável para uma situação exigente de sofrimento psicológico.

Perante este cenário a questão não é proibir, mas educar e regular. É urgente investir em literacia digital e em saúde mental desde cedo, ensinando crianças e adolescentes a avaliar criticamente a informação online. É necessário envolver os próprios criadores de conteúdos, reconhecendo o seu impacto e formando-os sobre princípios éticos.

É fundamental reforçar os serviços de saúde mental acessíveis, pois uma das razões pelas quais mais jovens recorrem ao TikTok é a dificuldade de acesso à ajuda profissional. Por fim, é essencial criar espaços de diálogo entre gerações, onde se possa falar abertamente sobre o que se vê nas redes sociais.

A mesma plataforma que hoje propaga desinformação poderia ser uma ferramenta poderosa de literacia em saúde mental, se houvesse investimento em educação, regulação responsável e envolvimento qualificado.

Para os milhões de jovens que encontram no TikTok as primeiras palavras para descrever o seu sofrimento, a plataforma foi, em muitos casos, um ponto de partida e o desafio é garantir que não se torne um ponto de chegada. O TikTok pode abrir a porta, mas não pode, nem deve substituir o que está do outro lado: qualquer profissional que possa acompanhar, uma pessoa adulta que saiba ouvir, uma escola que acolha, uma família que compreenda.

Agosto 26, 2026 . 11:00

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