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Calor extremo na Europa será padrão nas próximas décadas, avisam climatologistas

Climatologistas alertam que o aquecimento global já altera os hábitos europeus

O calor extremo sentido neste verão em vários países europeus será regra nas próximas décadas, avisam climatologistas sobre os efeitos do aquecimento global, que já mudou os hábitos dos europeus, mais atentos às alterações climáticas.

"As ondas de calor não param. Já não aguento mais. Sempre que pensamos que está a acabar, na verdade volta" o calor, afirmou Ayse Gurbuz, estudante em Lyon, à agência francesa AFP.

Até 19 de agosto, a França registou 52 dias de ondas de calor desde meados de junho, um recorde para a época ainda não terminada. No resto da Europa, as temperaturas atingiram máximos absolutos, como 45,1 graus em Andújar (Espanha), 48,4 graus em Orani (Sardenha), 42,2 graus na Eslováquia e 37 graus na Dinamarca.

Este calor extremo provocou mortes. Em Portugal, as autoridades registaram três períodos de excesso de mortalidade nos últimos meses, com 680 óbitos acima do esperado, segundo o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (Insa) e a Direção Geral da Saúde.

Estas entidades indicam que a maioria dos óbitos ocorreu em pessoas com 75 ou mais anos, predominando causas circulatórias, respiratórias e neoplásicas. Os óbitos cuja causa básica foi codificada como exposição a calor excessivo representam apenas uma pequena parte do impacto, pois o calor funciona como fator desencadeante ou agravante de outras patologias.

Simon Stiell, responsável pela ONU Clima, alertou que as alterações climáticas extremas, incluindo períodos de chuva intensa quase tropical, são "um lembrete brutal das consequências em cadeia da crise climática, tanto humanas como económicas".

Por toda a Europa, instalou-se o hábito de observar ansiosamente o termómetro e os boletins meteorológicos, mas para o climatólogo francês Jean Jouzel, antigo vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, este é o novo normal. "O que estamos a viver é aquilo que a nossa comunidade (científica) prevê há cerca de trinta anos", afirmou.

No primeiro dia do verão, o País Basco e oito cidades italianas entraram em alerta vermelho devido à onda de calor, levando ao encerramento de escolas, cancelamento de festivais e suspensão de transmissões do Mundial e fogueiras de São João.

De meados de junho a meados de agosto, foram registadas mais de 32.000 mortes adicionais na Europa, aponta um balanço provisório.

O número de pessoas que sofrem de eco-ansiedade disparou para 2,6 milhões, segundo o Observatório da Eco-Ansiedade.

Os incêndios consumiram cerca de 600.000 hectares até 12 de agosto, do sul da Europa às regiões setentrionais. A seca transformou paisagens verdejantes em horizontes desolados, com metade do continente afetada no final de julho.

Em França, Suíça, Áustria e Eslovénia, a humidade do solo caiu para níveis historicamente baixos. John Pawsey, agricultor britânico, relatou que "tudo secou de repente. As únicas plantas que cresceram foram a azeda e o cardo", diante dos seus campos de quinoa queimados pelo sol.

Grandes rios como o Reno, Loire e Tamisa apresentaram caudais reduzidos, centrais nucleares pararam produção por falta de água e surgiram destroços de navios e equipamentos afundados da II Guerra Mundial.

Lençóis freáticos, apesar de terem sido reabastecidos no inverno, começaram a baixar em França, Piemonte e Espanha, obrigando vários municípios a receber abastecimento de água potável.

A falta de água nos campos afeta rendimentos do milho e girassol, contribuindo para a antecipação das vindimas e colheitas.

No mar, o Mediterrâneo registou em julho a temperatura média da superfície mais elevada de sempre para este mês, com 27,07 °C.

Jean Jouzel alerta que este verão extremo antecipa apenas o futuro. "Em 2100, há grandes probabilidades de que 2026, se tomarmos esse ano como referência, seja considerado 'um verão normal'", frisou, pedindo uma "tomada de consciência".

"É preciso compreender que nos dirigimos para uma catástrofe se não conseguirmos inverter as tendências", salientou a partir da sua Bretanha natal, onde o termómetro ultrapassou várias vezes os 40 graus este verão.

Agosto 24, 2026 . 19:15

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