Lições de Ontem para o Portugal de Hoje
Acabei recentemente de ler Um Republicano na Mira da PIDE, de Acácio Pinto. Foi uma leitura feita com calma, mas que rapidamente se revelou muito mais do que um simples momento de leitura: transformou-se numa reflexão profunda sobre o passado e, inevitavelmente, sobre o presente. Há livros que contam a História. Outros obrigam-nos a confrontar a realidade em que vivemos. Um Republicano na Mira da PIDE consegue fazer ambas as coisas. A obra acompanha a vida de Júlio Calisto, um advogado respeitado, cuja competência, integridade e sentido de justiça lhe granjearam a admiração de pessoas de todas as sensibilidades. Enquanto o seu prestígio servia os interesses instalados, era reconhecido e valorizado. Tudo mudou quando assumiu publicamente as suas convicções republicanas e decidiu agir de acordo com a sua consciência. A partir desse momento, aqueles que antes o admiravam passaram a vê-lo como uma ameaça.
O respeito deu lugar à desconfiança e iniciou-se um processo de descredibilização assente em rumores, ataques ao seu bom nome e tentativas de isolamento. O objetivo era evidente: silenciar quem ousava desafiar os poderes instituídos. É precisamente aqui que o romance ultrapassa o seu valor histórico e se torna intemporal. A leitura mostra-nos que a perseguição às ideias raramente começa pelas próprias ideias; começa, quase sempre, pela tentativa de destruir a credibilidade de quem as defende. Mais de cem anos passaram. Mudaram os regimes, mudaram as instituições e, felizmente, Portugal vive hoje em democracia.
Mas a obra deixa-nos uma pergunta inevitável: e as pessoas? Terão acompanhado essa mudança? Infelizmente, ainda encontramos pequenos feudos onde a proximidade ao poder vale mais do que o mérito, onde a independência incomoda e a discordância é confundida com deslealdade. Continua a ser mais fácil desacreditar uma pessoa do que responder aos seus argumentos. A história de Júlio Calisto recorda-nos que o passado tem uma inquietante capacidade de se refletir no presente sempre que persistem atitudes que desprezam o mérito, a independência e a liberdade de pensamento.
Os verdadeiros desrespeitadores da democracia raramente se expõem. Preferem permanecer na sombra, servindo-se de terceiros para espalhar rumores, alimentar suspeitas ou atacar o bom nome de quem lhes causa incómodo. Tão preocupante como quem abusa do poder é a existência de quem abdica do espírito crítico para se tornar instrumento da vontade de outros. Uma sociedade verdadeiramente livre exige cidadãos com coluna vertebral, capazes de pensar pela própria cabeça e de assumir, com responsabilidade, as suas palavras e os seus atos. “As instituições mudam. As leis evoluem. Mas a liberdade só perdura quando os comportamentos acompanham essa evolução”.
A história de Júlio Calisto lembra-nos que a honra de uma pessoa pode demorar uma vida inteira a construir e apenas um instante para tentarem destruí-la. Quando o mérito deixa de incomodar pela sua excelência e passa a incomodar porque desafia interesses instalados, começa o caminho da descredibilização. E esse é sempre um sinal de fraqueza do poder, nunca de força. Um Republicano na Mira da PIDE não é apenas um livro sobre o passado. É um espelho que nos obriga a olhar para o presente e a questionar se aprendemos verdadeiramente com a História. Porque a verdadeira medida de uma sociedade não está apenas na liberdade que proclama, mas na forma como trata aqueles que têm a coragem de pensar diferente. Talvez seja essa a maior lição que esta obra nos deixa: a História nunca se repete de forma idêntica, mas os seus erros regressam sempre que a intolerância, a inveja e o abuso de poder se sobrepõem à liberdade, à verdade e ao respeito pelo próximo.






