Kahraman e razões para acreditar. Mas também para não baixar a guarda
Trinta e sete anos depois, o clube volta ao palco principal do futebol português e esse, por si só, já é um motivo de orgulho para todos os academistas. Mas o entusiasmo não nasce apenas da promoção.
Resulta da forma como o clube tem preparado este regresso. Ainda ninguém somou um ponto, é certo, mas há sinais claros de que o Académico quer fazer desta passagem pela Primeira Liga muito mais do que uma simples experiência. Há razões para acreditar. E há também razões para manter os pés bem assentes na terra.
Um mercado que começou bem
No futebol, contratar bem é importante. Conseguir manter quem fez a diferença é, muitas vezes, ainda mais valioso. O Académico conseguiu preservar uma parte importante da espinha dorsal da equipa que conquistou a promoção. Jogadores que despertavam interesse de outros clubes decidiram continuar de negro vestido, dando continuidade a um projeto em que acreditam. O caso de Kahraman é talvez o exemplo mais evidente.
A sua permanência representa muito mais do que uma vitória no mercado. Representa a convicção de um jogador que escolheu continuar a fazer parte de um momento histórico. Num futebol onde a estabilidade é cada vez mais rara, essa continuidade pode revelar-se uma vantagem competitiva importante.
Trabalho, método e exigência
A pré-temporada tem deixado boas indicações. Entre os trabalhos realizados em Viseu e o estágio em Cádis, percebe-se uma equipa técnica organizada, exigente e consciente do desafio que tem pela frente.
Bruno Pinheiro não chegou para apagar o passado. Chegou para acrescentar novas ideias a um grupo que já possuía identidade competitiva. Essa capacidade de aproveitar o que foi bem construído na época passada poderá ser um dos fatores decisivos ao longo da temporada.
Um Fontelo preparado para a elite
Também o Estádio do Fontelo está a viver a sua própria promoção. As obras realizadas melhoram significativamente as condições oferecidas a jogadores, adeptos e comunicação social. O novo relvado, o aumento da capacidade e a renovação estética do recinto reforçam a imagem de um clube que quer afirmar-se ao mais alto nível.
É justo reconhecer o papel da Câmara Municipal de Viseu, que respondeu rapidamente às necessidades criadas pela subida de divisão. O Académico continuará a jogar onde pertence: na sua casa, perante a sua gente.
Uma identidade cada vez mais forte
Existe outro aspeto que merece destaque: a forma como o clube comunica. O discurso do treinador, dos dirigentes e dos jogadores tem sido consistente e equilibrado. Não há promessas irrealistas nem discursos derrotistas. Existe consciência das dificuldades, mas também confiança no trabalho desenvolvido.
Essa identidade estende-se para lá das quatro linhas. A apresentação dos novos equipamentos, inspirados na história do clube e na tradição vitivinícola do Dão, demonstra que o Académico continua a afirmar a sua ligação à cidade e à região. Essa proximidade é um património que muitos clubes gostariam de possuir.
O entusiasmo não elimina as dúvidas
Mas acreditar não significa ignorar a realidade. A Primeira Liga apresenta um nível competitivo muito superior e o mercado ainda deixa a sensação de que o plantel necessita de mais algumas soluções capazes de aumentar a profundidade e a qualidade da equipa. A continuidade do grupo é uma vantagem evidente.
No entanto, um campeonato longo exige alternativas de nível semelhante para responder a lesões, castigos e momentos de menor rendimento. É precisamente aí que o Académico poderá ainda dar mais um passo em frente antes do encerramento do mercado. Não se trata de desvalorizar o trabalho realizado.
Pelo contrário. Trata-se de proteger um projeto que merece todas as condições para competir.
A cidade voltou a acreditar
Talvez seja este o maior sinal de mudança. Há muitos anos que não se sentia uma ligação tão forte entre o clube e os seus adeptos. Existe entusiasmo, existe orgulho e, acima de tudo, existe confiança na forma como o Académico está a ser conduzido. Naturalmente, serão os resultados a ditar o sucesso da temporada.
O calendário inicial será exigente e ninguém espera uma caminhada fácil. Mas, ao contrário de outras épocas, existe hoje a sensação de que o clube chegou à Primeira Liga com organização, estabilidade e uma identidade muito própria.
Agora começa a verdadeira prova.
Será preciso continuar a trabalhar, sofrer, corrigir, evoluir e, se necessário, reforçar o plantel com a mesma inteligência demonstrada até agora. Porque as permanências não se conquistam apenas com entusiasmo. Conquistam-se com competência, ambição e capacidade para crescer ao longo da época. O Académico já demonstrou que sabe subir de divisão. Agora chegou o momento de mostrar que veio para ficar.






