Um mês depois dos sismos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram a Venezuela, foram expostas falhas na construção da habitação social promovida pelo regime chavista, com centenas de edifícios danificados, confirmando preocupações antigas de habitantes e especialistas.
O chamado urbanismo "Hugo Chávez" na cidade de Catia La Mar, foi amplamente afetado pelo duplo sismo no dia 24 de junho, e um mês depois, tanto a população como especialistas têm denunciado falhas na construção dos cerca de 3.200 apartamentos.
Segundo os relatos recolhidos pela plataforma de jornalismo de investigação venezuelana Armando.info e pela Organized Crime and Corruption Project, que falou com habitantes deste urbanismo, os prédios "afundaram" durante os sismos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter.
As fotografias dos prédios, construídos por uma empresa turca que desenvolveu projetos de habitação deste tipo em países como a Líbia durante o regime de Muahmmar Khadafi, foram apresentadas ao presidente do Colégio de Engenheiros do estado Lara, Julio Gutiérrez, que apontou para falhas nas fundações dos edifícios.
Gutiérrez aferiu que, nesse local, "as fundações [dos edifícios] falharam, tendo-os levado a inclinar-se e a afundar".
O engenheiro venezuelano precisou que o facto de os edifícios estarem inclinados devido ao sismo pode indicar que "não foram construídos com alicerces que chegam até ao leito rochoso ou a um leito mais firme", segundo a plataforma venezuelana.
"Presumimos que tenham cedido devido a este efeito", explicou, citado pela Armando.info, acrescentando que, quando as fundações são apenas superficiais "fazem com que a estrutura do edifício comece a afundar-se e a inclinar-se para um lado" durante um sismo, sobretudo em solos com muitos sedimentos, como os da região afetada.
Anos antes do sismo, nomeadamente em 2017, vários residentes do urbanismo já tinham apontado várias falhas estruturais nos edifícios.
Muitas das pessoas que viviam nestes prédios estão agora desalojadas pela segunda vez, sendo que muitos destes residentes tinham perdido as suas casas durante umas cheias violentas na mesma região que provocaram mais de 780 mortos.
As falhas de construção, anos de negligência e de não aplicação de protocolos, bem como de licenciamento precário, são alguns dos problemas elencados por uma reportagem da rádio alemã Deutsche Welle sobre os edifícios de habitação social de "arquitetura chavista" que ruíram com os sismos.
A mesma rádio contactou a arquiteta e engenheira civil que coordena dezenas de profissionais que oferecem apoio aos cidadãos, Glennys Gonzalez, que apontou que a avaliação do seu grupo sugere que em muitos casos os protocolos de construção foram ignorados.
Segundo a plataforma de jornalismo de investigação Organized Crime and Corruption Project, a empresa de construção contratada pelo Governo de Chávez que ergueu este urbanismo foi a turca Suma, que desenvolveu também outros projetos noutras regiões do país.
Hugo Chávez terá entrado em contacto com esta empresa turca após uma visita de Estado à Líbia onde visitou projetos de habitação social promovidos pelo ditador líbio Muammar Gaddafi.
Também a Deutsche Welle reportou que muitos blocos de apartamentos foram "construídos rapidamente" por um conjunto de órgãos estatais e empresas da China e da Bielorrússia e com "pouca transparência pública".
Somando às alegadas deficiências de construção, o solo nesta região é uma mistura de areia, cascalho e detritos que aumentam a intensidade e amplificam a vibração quando atingidos por um sismo.
Os sismos registados na Venezuela em 24 de junho causaram pelo menos 5.398 mortos e 16.740 feridos, segundo o mais recente balanço oficial.
Entre os mortos, há pelo menos 133 portugueses e lusodescendentes, e outros 21 estão desaparecidos.
Vários países, incluindo Portugal e outros Estados da União Europeia, enviaram equipas de busca e salvamento para a Venezuela.
Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo, e foram seguidos por centenas de réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.
A Federação Nacional dos Médicos (Fnam) considerou incompreensível o período de quatro meses que decorreu entre o fim da formação dos novos especialistas em medicina geral e familiar e a sua colocação nos centros de saúde.
“Os recém-especialistas terminaram a formação em março, permaneceram meses sem saber quando seria aberto o concurso, escolheram vagas apenas em junho e iniciaram funções em julho”, lamentou a estrutura sindical, para quem este “atraso é incompreensível” num país que enfrenta “uma das maiores carências de médicos de família da sua história”.
De acordo com a Fnam, este intervalo entre março e julho representou “quatro meses perdidos” para cerca de 1,6 milhões de utentes que não têm um especialista de medicina geral e familiar atribuído.
O último concurso nacional para colocação de médicos de família no Serviço Nacional de Saúde (SNS) disponibilizou um total de 711 vagas, todas solicitadas pelas unidades locais de saúde (ULS). No entanto, apenas 273 médicos de família foram colocados nos centros de saúde.
Segundo a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), responsável pelo concurso, com a entrada destes 273 novos médicos no SNS será possível atribuir médico de família a cerca de 400 mil utentes.
Para a Fnam, que reúne três sindicatos médicos, estes números evidenciam que o problema do SNS deixou de ser apenas a abertura de concursos, passando a ser a capacidade de tornar este serviço público “suficientemente atrativo” para fixar profissionais de saúde. Dos 441 candidatos admitidos, apenas 62% escolheram uma vaga disponível.
A federação salientou que um “processo de recrutamento minimamente sério” exige que os calendários anuais dos concursos sejam conhecidos e cumpridos, que os concursos sejam abertos atempadamente após a conclusão da formação especializada, que os períodos de escolha de vagas sejam suficientemente alargados e que as vagas não preenchidas se mantenham abertas em permanência.
“Quando 38% dos candidatos admitidos optam por não ingressar no SNS, o Ministério da Saúde tem a obrigação de perceber porquê”, defendeu a Fnam, considerando indispensável auscultar os médicos que recusaram uma vaga, identificando os motivos da decisão e adotando medidas concretas para inverter a situação.
Em maio, mais de 1,6 milhões de pessoas não tinham médico de família, cerca de 1,1 milhões das quais na região de Lisboa e Vale do Tejo, a mais carenciada do país, contrastando com o Norte, onde a cobertura é elevada.
Na última semana, a ACSS informou que o concurso permitiu reforçar os cuidados de saúde primários em todas as regiões do país, com um aumento do número de médicos colocados face ao ano anterior, incluindo nas zonas com maior falta de médicos de família, como Lisboa e Vale do Tejo.







