O mundo está perigoso e nós estamos a discutir o Ronaldo…
Em Maio / Junho de 1958 o general De Gaulle foi chamado a constituir o último governo da IV República francesa. Era mais uma vez visto como o salvador da pátria, desta vez do terrível atoleiro em que a França estava metida na Argélia, perante o risco de um golpe de estado militar para salvar a “Argélia Francesa”.
De Gaulle chegou ao poder com duas prioridades: resolver o atoleiro argelino e instituir uma nova Constituição para fundar a V República Francesa. Tinha uma condição, a de poder governar por decreto sem controlo da Assembleia, até à eleição do 1º Presidente da República de acordo com a nova Constituição.
Os poderes que exigiu foram-lhe outorgados por todos, incluindo o partido socialista do Sr. Guy Mollet que entrou para o governo de salvação nacional.
A nova Constituição foi esmagadoramente aprovada em referendo; a solução do problema argelino só chegou em 1962, com a plena independência da Argélia.
Mas nesses seis meses, o governo não se limitou às 2 prioridades. Bem pelo contrário, levou a cabo por decreto, um conjunto muito alargado de reformas de fundo, que até então se tinham revelado impossíveis de realizar.
Arrostando corajosamente com a impopularidade de muitas dessas reformas, De Gaulle foi devidamente eleito o 1º Presidente da nova V República e aí se manteve até 1968.
A França de hoje em dia não podia apresentar um aspecto mais diferente.
A 2ª economia da zona Euro teve nos últimos anos uma sucessão galopante de primeiros ministros, está com uma dívida pública de 130% e um déficit orçamental anual de mais de 5% e a subir.
As reivindicações sectoriais, manifestações greves e motins, não param; os sucessivos governos tentam dar tudo a todos, sobem a despesa, aumentam os impostos sobre quem os paga, e não parece haver qualquer luz ao fundo do túnel.
Salvo a ocorrência de um milagre, as próximas eleições presidenciais serão disputadas entre a Sra. Le Pen, uma populista de extrema-direita, que apoia a Rússia de Putin e está contra a União Europeia, e um Sr. Mélenchon, extremo populista de extrema esquerda que apoia a Rússia de Putin e está contra a União Europeia.
O centro parece desaparecido em combate.
Não sei se estamos a ver todos, mas está é a maior ameaça geopolítica com que Portugal se depara nos tempos mais próximos.
Acontece que também por cá a situação da estabilidade política não está famosa. Temos no entanto uma enorme vantagem: ao contrário da França, da Alemanha ou do Reino Unido, em Portugal o centro ainda arregimenta mais de metade do eleitorado. Isto quer dizer que ainda há em Portugal um anteparo para uma gestão razoável do Estado.
Falta saber se é o suficiente para, além de gerir razoavelmente o quotidiano, também levar a cabo uma série de reformas de fundo que vão ferir numerosos interesses sectoriais.
Os sinais para já não são bons: a recente proposta legislativa sobre arrendamento urbano, de carácter razoável e moderado, quase um milagre de equilíbrio de interesses, deparou-se com a total oposição do Partido Socialista, que trouxe para a ribalta da discussão a deputada e ex-ministra Marina Gonçalves, a protagonista da última lei do PS sobre arrendamento urbano, lei imposta pelo Bloco de Esquerda, que ia matando o arrendamento urbano.
Não são bons sinais, são maus.
Os próximos anos vão ser extraordinariamente difíceis, para todos e, portanto, também para nós. Só num ambiente de grande consenso e coesão nacional poderemos ultrapassá-los.
P.S. no Brasil ao prenderem o ex-presidente Jair Bolsonaro fizeram um mártir e ajudaram a fundar uma nova religião política. Agora avenham-se com ela.





