
Canas de Senhorim e a viagem de volta aos tempos da Idade Média
O portão de madeira envelhecida avisava logo à entrada. Bastava atravessá-lo para perceber que Canas de Senhorim tinha recuado vários séculos. Do outro lado, ouviam-se os bombos e as gaitas de foles, enquanto pelas ruas se cruzavam personagens trajadas a rigor, artesãos e visitantes.
Mas antes da feira se perder no movimento das ruas, era preciso ouvir quem há 34 anos lhe dá voz. José Artur, uma das figuras mais conhecidas da Feira Medieval de Canas de Senhorim, voltou a assumir o papel de arauto e a abrir a tarde de sábado com o tradicional pregão.
“A todos os vizinhos desta vila de Canas de Senhorim, em seu termo, se faz saber” que, durante três dias, se faria uma feira franca na vila. Gente “de perto e de longe” era chamada a vender as suas mercadorias, “coisas de comer e de beber” e “produtos de seu engenho, labor e o que mais houver”.
A linguagem podia ser de outros tempos, mas o convite era fácil de entender: mercar, comer, beber e folgar. No final, ouviu-se o grito que já faz parte da festa: “Viva Canas de Senhorim! Viva Canas de Senhorim! Viva Portugal!”, entre aplausos.
Depois, cada um encontrava o seu caminho. Havia peças trabalhadas à mão, produtos tradicionais, objetos que pediam para ser vistos de perto e sabores que chegavam pelo cheiro antes mesmo de se descobrir de onde vinham.
Mas, em minutos, alguma coisa mudou. O som aproximava-se e, pouco a pouco, a rua começava a abrir espaço para aquilo que estava a chegar. Guerreiros, cavaleiros a cavalo, dragões, estandartes e armas traçavam o cortejo que ameaçava preencher as ruas. As crianças aproximavam-se para ver melhor, enquanto os adultos (também) acompanhavam esta passagem de outros tempos.
Pelo percurso, a história ganhava diferentes momentos. Um homem avançava com um pesado cepo de madeira preso ao pescoço, outros seguiam armados, enquanto os cavalos marcavam o passo e os dragões acrescentavam um lado fantástico à recriação.
Por alguns minutos, a rua transformava-se noutra época. Não era preciso procurar o espetáculo: ele vinha ao encontro de quem ali estava.
Na Fazenda dos Animais, a espera era outra. O famoso bufo atraía os mais curiosos, sobretudo os que queriam vê-lo de perto.
Entre animais e sons que chegavam de outros pontos, aquele espaço acrescentava mais uma história à experiência. Mas talvez o que melhor define estes dias é precisamente a mistura.
O pregão de José Artur, o trabalho dos artesãos, os sons dos músicos, o cheiro dos petiscos e a animação que atravessava Canas de Senhorim iam construindo uma experiência que não precisava de explicações.
A Feira Medieval já soma 34 anos. Há quem a conheça desde criança e regresse agora com os filhos, há quem a descubra pela primeira vez. A tradição mantém-se, mas a cada edição há novos olhos a vê-la.
Quando chega a hora de partir, o portão de madeira volta a ficar para trás. E com ele ficam os bombos, as gaitas, os cavalos e os dragões. Cá fora, o presente está (sempre) à espera.








