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O código postal não pode determinar o futuro

Setembro 29, 2026 . 14:30
Os resultados do PISA 2025, recentemente di­vulgados pela OCDE, voltaram a colocar a educação no centro do debate.

Portugal permanece próximo da média dos países desta organização, mas há um sinal que não podemos ignorar: nas três áreas avaliadas, o desempenho dos nossos jovens regressou a níveis próximos dos registados em 2006. Depois de anos de progresso e convergência, estamos a perder parte dos avanços que o país levou décadas a construir.

Mas talvez o dado que mais nos deva fazer pensar não esteja na posição de Portugal num ranking. Está na persistência das desigualdades.

Em ciências, os 25% de alunos portugueses socioeconomicamente mais favorecidos obtêm mais 92 pontos do que os 25% mais desfavorecidos, uma diferença superior à média da OCDE. A origem social continua, portanto, a pesar demasiado nos resultados escolares.

É aqui que a educação se cruza inevitavelmente com o território. O PISA não permite concluir que um aluno do interior tenha piores resultados simplesmente por viver longe dos grandes centros. Mas sabemos que as desigualdades económicas e sociais também têm uma expressão territorial.

Garantir uma efetiva igualdade de oportunidades exige, por isso, uma atenção e um investimento acrescidos nas regiões do interior, envolvendo o poder local e toda a comunidade educativa. São territórios onde, muitas vezes, se acumulam envelhecimento e perda de população, menores rendimentos, menor dinamismo económico e maiores dificuldades na atração e fixação de profissionais qualificados.

A escola não vive isolada desta realidade. Um jovem que cresce num território de baixa densidade pode frequentar uma excelente escola e ter excelentes professores. Mas terá à sua volta as mesmas oportunidades?

O mesmo acesso à cultura, à aprendizagem de línguas, ao desporto, à tecnologia, à orientação vocacional ou ao contacto com empresas, universidades e centros de investigação? A verdadeira igualdade de oportunidades passa por assegurar que cada jovem encontra condições para desenvolver plenamente as suas capacidades, independentemente do lugar onde nasceu ou das condições económicas da sua família.

Isso exige um ecossistema educativo de qualidade, com boas escolas, professores valorizados, apoio aos alunos com dificuldades e acesso à cultura, à ciência, ao desporto e à tecnologia, capaz de ampliar horizontes e elevar as expectativas dos jovens. As instituições de ensino superior do interior têm aqui uma responsabilidade acrescida.

A missão de uma universidade deve começar muito antes de o estudante se matricular no primeiro ano. Deve estar próxima das escolas, aproximar os jovens da ciência e da investigação, abrir os seus laboratórios, promover programas de mentoria e orientação, estimular vocações e mostrar que percursos académicos e profissionais ambiciosos estão ao alcance de todos.

É também desta forma que instituições como a Universidade Politécnica de Viseu podem contribuir para transformar a região: não apenas formando profissionais, mas também elevando qualificações, criando oportunidades e ampliando as ambições das novas gerações.

A coesão territorial também se constrói nas escolas e nas universidades, na qualidade dos serviços públicos e na capacidade de proporcionar aos jovens razões para acreditar que podem estudar, trabalhar, inovar e construir aqui o seu projeto de vida. Um país que pretende aproveitar todo o seu potencial não pode aceitar que o talento de uma criança encontre oportunidades diferentes apenas porque nasceu num determinado concelho ou numa família com menos recursos.

Uma sociedade desenvolvida não é aquela em que todos partem do mesmo ponto, sabemos que isso não acontece, mas aquela que procura impedir que as circunstâncias de partida determinem o ponto de chegada.

Num país marcado por profundas assimetrias territoriais, a educação é uma das mais poderosas políticas de coesão de que dispomos. Investir nas escolas do interior, nos seus profissionais e nas oportunidades oferecidas aos jovens não é favorecer determinados territórios.

É garantir que Portugal não desperdiça talento simplesmente porque esse talento nasceu longe dos grandes centros. O lugar onde nascemos faz parte da nossa identidade. Não pode transformar-se no limite das nossas oportunidades. O código postal não pode determinar o futuro.

Setembro 29, 2026 . 14:30

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